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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Post esquisito

Se Deus fosse baterista, invocar a santíssima trindade provavelmente seria algo assim: “Em nome de John Bonham, Ian Paice e Keith Moon, amém”. Pensa só, ninguém nunca fez nada parecido com o que eles criaram. Muito pelo contrário, seus estilos são como um evangelho que todo mundo adota cegamente. E o mais incrível é que eles viveram juntos e não deixaram nada para outras gerações, renegadas ao limbo de décadas infinitamente mais chatas do que a de 70.

É maluco como os três são tão parecidos em alguns aspectos – como potência sonora e irreverência –, mas tão singulares em outros. Cada um deles tem uma vantagem que falta ao outro. Somados, não só deixariam o planeta terra em êxtase – como fizeram, de alguma maneira –, mas seriam simplesmente incompreensíveis aos ouvidos de simples mortais como nós.

Ian Paice é o certinho. Postura perfeita, grip impecável, técnica evoluída (como a dos anciões do jazz) e canhoto, só para tornar tudo um pouco mais diabólico. John Bonham era o pedreiro: baquetas como martelos de Thor e precisão de um relógio, tudo isso aliado a uma criatividade emocionante. Keith Moon era o geninho. Segurando a baqueta pelas pontinhas, como se fosse derrubá-las, ele dispensava o chimbal, porque com ele não havia groove, mas um eterno solo com muitas pratadas, bumbos duplos e movimentos de cabeça.
Quem é o melhor? Não sei. Talvez essa não seja a grande questão. Mais fácil é responder quem é o seu favorito. Analisando friamente, o Ian Paice parece ter uma grande vantagem sobre os outros: ele conseguiu sobreviver. Passar pela época de culto às drogas e sair ileso talvez tenha até diminuído seus feitos perante a história, pois não há dúvidas que os dois concorrentes – mortos pelo exagero – sejam mais conhecidos e celebrados. No entanto, a capacidade que Ian Paice ainda tem de ensinar, dar workshops e assinar autógrafos de pequenos entusiastas do instrumento, com certeza supera o glamour de uma lenda.

Quando ele toca parece dizer: “Olha nós éramos bons porque fazíamos assim, não porque éramos chapados”. Se Keith Moon estivesse vivo como o colega, talvez tantos bateristas não estivessem plagiando sua pose, mas, sim, sua musicalidade. Com sua imagem de vovô da bateria, ele poderia falar: “Olha, nós éramos parte de uma época de excessos que já acabou. Agora vamos tentar reinventar aquilo que eu tocava, porém dessa vez sem os terninhos e a panca de desajustado”.

Hoje, nós criamos muitos virtuosos e imitões, mas onde estão os salvadores de nosso tempo? Enquanto Deus não manda nenhum outro representante até a Terra, eu fico com aquele que já está um pouco gasto, mas está aí.


Bom, é melhor terminar esse post antes que ele vá para algum lugar mais inesperado do que este em que chegou. Mas antes, uma homenagem ao Ian Paice: meu disco favorita do Deep Purple, aquele que tem as músicas mais famosas da banda, o Machine Head, de 1972.



Machine Head - Deep Purple
1972



1. Higway Star
2. Maybe I'm a Leo
3. Pictures of home
4. Never Before
5. Smoke on the Water
6. Lazy
7. Space Trucking



para fechar, um solo do vovô...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O livro esquecido do Deep Purple

Os membros do Deep Purple original já afirmavam antes mesmo do hype do heavy metal ganhar proporções infelizes, que odiavam serem rotulados como uma banda de hard rock, ou seja lá o que isso significa. No começo de sua carreira, esta banda inglesa tinha cabelos razoavelmente longos, bigodes esquisitos, roupas piores ainda. Sim, eram psicodélicos. O primeiro disco do grupo Shades of Deep Purple, lançado em 1967, contém a formação original: Rod Evans no vocal, Ritchie Blackmore destruindo na guitarra, Nick Simper no baixo, o tecladista Jon Lord, também responsável pelos arranjos de corda, e Ian Paice na bateria. Com esta mesma gangue, surgiu o desconhecido e, pra mim, o melhor disco do Purple.




Altamente influenciado pelos mitos anglo-saxões, sempre identificados como a paixão de Blackmore, carregado de citações clássicas e bastante pesado para a época, o Deep Purple lançou o disco The Book of Taliesyn no ano seguinte de seu primeiro esforço. A música de abertura “Listen, Learn, Read On” narra sobre uma época na qual o homem era ensinado pela vida, passando por provações religiosas e atingindo a glorificação pelo punho de sua espada. O título do disco, aliás, é emprestado do manuscrito Livro de Taliesin, do famoso poeta homônimo do País de Gales, que organizou o livro com outros vários poemas de origem oratória.

Essa viagem ao século VI influenciou outras grandes bandas, como Uriah Heep e Wishbone Ash, e também marcaria uma grande virada na carreira do guitarrista Ritchie Blackmore. Antes do novo milênio, formou a banda Blackmore’s Night, na qual utiliza somente instrumentos folclóricos e compartilha o palco com a bela voz de Candice Night (veja o tamanho da piração em http://www.blackmoresnight.com/).

Embora este disco também apresente linhas mais agressivas, diferentemente do estilo mais voltado ao blues e aos experimentalismos da geração de 60 que o primeiro esforço da banda apresenta, The Book o Taliesyn ainda contém as bases sobre as quais o Deep Purple foi criado. Exemplo disso é a música “Kentucky Woman”, uma releitura da versão clássica composta por Neil Diamond.

Não me entendam errado. Deep Purple é uma das maiores bandas já criadas e seu repertório é um dos mais impressionantes da música. Mesmo assim, as raízes que transformaram o grupo em um sucesso que ainda hoje movimenta bastante o mercado, exemplo é o próximo show que farão nesta sexta-feira (dia 22), em São Paulo, foram esquecidas. The Book of Taliesyn é um marco na história da música inglesa e negligenciar isso em detrimento ao hard rock de épocas mais comerciais é triste.


Ficha técnica:




The Book of Taliesyn – Deep Purple
Lançamento original: outubro, 1968
Duração: 43:57
Gravadora: Harvest Records (Reino Unido)

Músicas para download:

1. Listen, Learn, Read On – 4:05
2. Wring That Neck – 5:13
3. Kentucky Woman – 4:44
4. Exposition / We Can Work It Out – 7:06
5. Shield – 6:06
6. Anthem – 6:31
7. River Deep, Mountain High – 10:12