Se Deus fosse baterista, invocar a santíssima trindade provavelmente seria algo assim: “Em nome de John Bonham, Ian Paice e Keith Moon, amém”. Pensa só, ninguém nunca fez nada parecido com o que eles criaram. Muito pelo contrário, seus estilos são como um evangelho que todo mundo adota cegamente. E o mais incrível é que eles viveram juntos e não deixaram nada para outras gerações, renegadas ao limbo de décadas infinitamente mais chatas do que a de 70.
É maluco como os três são tão parecidos em alguns aspectos – como potência sonora e irreverência –, mas tão singulares em outros. Cada um deles tem uma vantagem que falta ao outro. Somados, não só deixariam o planeta terra em êxtase – como fizeram, de alguma maneira –, mas seriam simplesmente incompreensíveis aos ouvidos de simples mortais como nós.
Ian Paice é o certinho. Postura perfeita, grip impecável, técnica evoluída (como a dos anciões do jazz) e canhoto, só para tornar tudo um pouco mais diabólico. John Bonham era o pedreiro: baquetas como martelos de Thor e precisão de um relógio, tudo isso aliado a uma criatividade emocionante. Keith Moon era o geninho. Segurando a baqueta pelas pontinhas, como se fosse derrubá-las, ele dispensava o chimbal, porque com ele não havia groove, mas um eterno solo com muitas pratadas, bumbos duplos e movimentos de cabeça.
Quem é o melhor? Não sei. Talvez essa não seja a grande questão. Mais fácil é responder quem é o seu favorito. Analisando friamente, o Ian Paice parece ter uma grande vantagem sobre os outros: ele conseguiu sobreviver. Passar pela época de culto às drogas e sair ileso talvez tenha até diminuído seus feitos perante a história, pois não há dúvidas que os dois concorrentes – mortos pelo exagero – sejam mais conhecidos e celebrados. No entanto, a capacidade que Ian Paice ainda tem de ensinar, dar workshops e assinar autógrafos de pequenos entusiastas do instrumento, com certeza supera o glamour de uma lenda.
Quando ele toca parece dizer: “Olha nós éramos bons porque fazíamos assim, não porque éramos chapados”. Se Keith Moon estivesse vivo como o colega, talvez tantos bateristas não estivessem plagiando sua pose, mas, sim, sua musicalidade. Com sua imagem de vovô da bateria, ele poderia falar: “Olha, nós éramos parte de uma época de excessos que já acabou. Agora vamos tentar reinventar aquilo que eu tocava, porém dessa vez sem os terninhos e a panca de desajustado”.
Hoje, nós criamos muitos virtuosos e imitões, mas onde estão os salvadores de nosso tempo? Enquanto Deus não manda nenhum outro representante até a Terra, eu fico com aquele que já está um pouco gasto, mas está aí.
Bom, é melhor terminar esse post antes que ele vá para algum lugar mais inesperado do que este em que chegou. Mas antes, uma homenagem ao Ian Paice: meu disco favorita do Deep Purple, aquele que tem as músicas mais famosas da banda, o Machine Head, de 1972.
1. Higway Star 2. Maybe I'm a Leo 3. Pictures of home 4. Never Before 5. Smoke on the Water 6. Lazy 7. Space Trucking
para fechar, um solo do vovô...
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Este disco ficou muito tempo na lista de “álbuns que preciso postar”. Entretanto, nunca acreditei ter competência para falar dele. Não conheço outros discos da banda, mas sei que este é um dos melhores. Eu não vou saber de cabeça o nome dos integrantes à época, só posso dizer que o Gary Moore ainda não estava lá – mas também sou contra textos enciclopédicos que despejam dados e tudo fica muito chato. No final, acabei por me convencer de que esta minha indicação é muito honesta. Tão honesta como aquele momento em que uma música te pega de jeito, e você nem sabe quem é que está tocando.
Ainda não estou totalmente convencido de que Jailbreak se trata, nos mínimos detalhes, de um álbum conceitual. Parece ser: a temática ronda uma certa fuga, uma batalha em uma suposta prisão, eu sei lá, vejam a capa. O que acontece depois é teoricamente a história desse fugitivo e sua turma. Eu não vou escrever muito não, nem precisa, mas queria utilizar o gancho do disco para comentar sobre timbres.
Na hora que você vai gravar, precisa de referências, dicas que te ajudam a obter aquele som que você acredita ser fantástico. Partindo desse princípio, é natural observar que cada estilo de música, cada gênero, tem seus timbres peculiares. Entretanto, nada pode superar o bom gosto. É subjetivo? Sim, talvez nem tanto. Pois muito bem, esse disco é uma das coisas mais bem gravadas dos anos 70 (talvez a década de melhores timbres naturais do todos os tempos,..., ou você gosta daquela bateria cheia de reverb que teimaram em inventar na década seguinte?). A bateria é linda, cheia e crua. As guitarras, que seguem o estilo twin-lead-guitars, ou seja, as duas solando juntas, tem um timbre maravilhoso de Les Paul ligada em amp Marshall. Phil Lynott era uma grande intérprete e um ótimo letrista. Enfim, artistas de fato.
É claro que em algum ponto, a galera simplesmente não sabe a hora de parar. Se você der uma olhada neste vídeo aqui, vai perceber, no mínimo duas coisas tristes:
1) sim, depois que Lynott morreu, a banda continuou, obviamente sem o carisma e talento do líder.
2) sim, eles ainda fazem shows, de maneira decadente. Em 2008, abrindo para o Def Leppard (argh!), agora, preste atenção no vídeo: onde é que estão as guitarras gêmeas? Não. Não estão lá.
E o mais engraçado, algo que li num cometário do vídeo no YouTube: é realmente, a impressão que dá é que em algum momento três quartos dessa banda esteve no Whitesnake, coisa que eu não posso confirmar. Algum especialista em heavy metal ruim pode ajudar?
Pra quem gosta de música brasileira, acredito que dois livros são essenciais. Um deles é o Noites Tropicais do Nelson Motta, uma espécie de biografia/relato do próprio. Ele narra tudo o que viveu, viu e ouviu, desde quando moleque, encantado com o som de João Gilberto até momentos mais recentes, como suas parcerias com Lulu Santos e trabalhos com Marisa Monte. O cara realmente é uma espécie de testemunha ocular da música. Acontece que seu relato é, muito justamente, mais ligado à cena Rio/São Paulo. Ele não esteve em todos os cantos do país ao mesmo tempo, por isso é que, como um complemento, eu sempre costumo sugerir às pessoas outro livro fantástico, Os Sonhos Não Envelhecem – histórias do Clube da Esquina.
Esse, escrito pelo Márcio Borges (irmão do Lô Borges) é um outro relato no estilo testemunha ocular, que conta, entre outras coisas, como um grupo de moleques ligadassos em música e cinema se tornou uma fonte de criação musical autêntica, com um som muito próprio e que não bebia exatamente das mesmas fontes da galera da Bossa Nova ou da Tropicália. É outra coisa, um ar de montanha, de estrada de terra, de trem maria-fumaça e viagem com os amigos. E também vale a pena ler para montar na cabeça uma espécie de filme. Você consegue ver um molecote negro e magrelo nas escadas do prédio onde os Borges moravam, tocando violão puxando as cordas de uma maneira peculiar (pense na introdução de “Travessia” e no violão dos versos de “Alunar” deste disco) e com uma voz de reverb natural. É meio que de arrepiar. Pois bem, isso tudo é para você criar uma base de comparação. Estou recomendando aqui um dos meus discos favoritos daquele que se tornou o artista mais famoso do clube, Milton Nascimento.
Este é o álbum Milton de 1970. Eu quase, mas quase mesmo, escolhi o seu disco de 72, entretanto três músicas em especial me fizeram dar preferência a esse. São elas “Alunar”, “Canto Latino” e “Clube da Esquina” (não confundir com a bem mais famosa “Clube da Esquina nº2”). Enfim, como se não bastasse, esse álbum também traz “Para Lennon e McCartney”, que é hit e tem uma guitarra sensacional. A única intrusa é “A Felicidade”, uma bossa de Tom Jobim e Vinícius de Moraes... só que uma intrusa dessas, na voz de Milton (que estava no auge) é sempre bem-vinda.
Uma das características mais interessantes desse disco (assim como de vários outros do Milton, ou do Lô Borges, por exemplo) é que poucas canções são de apenas um só compositor. Eles eram uma espécie de grupo de composição, e produziam muito. Por isso, várias gravadas são parcerias, e parcerias que deram muito certo, como por exemplo a dupla que o Milton formou com o Fernando Brant. Se você for atrás vai ver a quantidade assombrosa de canções lindas feitas pelos dois, como “Canção da América”. “Alunar” é uma canção dos irmãos Borges (Lô e Márcio), enquanto a linda “Clube da Esquina” era uma canção sem letra de Lô e Milton que impressionou tanto Márcio que ele logo começou a trabalhar uma letra. O resultado está aí, entre outras canções de atmosfera única.
1 Para Lennon E McCartney 2 Amigo, Amiga 3 Maria Tres Filhos 4 Clube Da Esquina 5 Canto Latino 6 Durango Kid 7 Pai Grande 8 Alunar 9 A Felicidade 10 Tema de Tostao 11 O Homem Da Sucursal 12 Aqui E O Pais Do Futebol 13 O Jogo
Aqui, um vídeo de 1997, Milton tocando só com o violão "Clube da Esquina". Comparem as versões...
É sempre interessante quando gravadoras e artistas unem-se para desenterrar artefatos arqueológicos valiosos. Essa introdução sem pé nem cabeça serve apenas para dar a linha: Bob Dylan anunciou nesta terça-feira (29/07) que vai lançar o oitavo capítulo da série “Bootleg” (gravações não utilizadas e raridades de estúdio) em outubro. Tell Talle Signs reúne peças de museus que datam de seus últimos vinte anos, desde o disco cristão Oh Mercy ao fantástico Modern Times.
Aproveitando o momento, deixo aqui uma coletânea de gravações informais de Bob Dylan acompanhado de sua banda favorita, The Band, com o título simplório de The Basement Tapes. As músicas, entre elas standards do country, composições do próprio Dylan e algumas surpreendentes canções escritas pelos integrantes da banda de apoio canadense, foram gravadas entre 1967 e 1975, em um estúdio no porão da casa de Dylan em Woodstock, New York. Vale a pena!
Aliás, estou devendo um disco do The Band aqui viu. Puta banda boa.
Ficha Técnica
The Basement Tapes – Bob Dylan and The Band Lançamento original: junho, 1975
Não me lembro quem exatamente perguntou por que o Ferrugem não coloca música brasileira para baixar. Olha, não que isso tenha sido uma decisão dos colunistas. Apenas foi assim. Para quebrar esse monopólio, pensei em colocar aqui um dos discos mais viajados de nosso incrível repertório nacional. Caí nas graças quando ouvi Carlos Erasmo, do ex-tremendão Erasmo Carlos.
Falar que esse álbum é produto somente da suave e fantasmagórica (obrigado André!) voz de Erasmo Carlos e de seus arranjos poéticos é pouco.
O cara contou com uma “tremenda” ajuda de vários colegas: os mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho tocam como músico de apoio, o doido Lanny Gordin (que já havia tocado com Gal Costa) e o maestro tropicalista Rogério Duprat também participam. A lista não acabou. A faixa de abertura, a melosa “De noite na cama” é do Caetano, o gingado de Jorge Ben aparece na psicodélica “Ninguém Chora Mais”, e a dupla Marcos Valle e Taiguara rouba a cena com a despretensiosa “26 anos de vida normal” e com “Dois animais na selva suja”. Mas e aí, como o cara que era símbolo da “revolução ingênua”, queridinho das queridinhas da Jovem Guarda deixou isso tudo de lado? Em parte por que Erasmo Carlos havia acabado de trocar de gravadora e passou a ter mais liberdade para trabalhar seu lado mais introspectivo. Conseguiu assim unir estilos musicais nordestinos em suas canções e adotar as inovações do rock dos anos 70. Assim, acaba-se com o ie-ie-ie chato de outras épocas e passa a compor músicas profundas e sofisticadas. A parceria com o rei Roberto Carlos também tomou rumo mais maduro. Rendeu até a mais celebrada música do disco: a ode “Maria Joana”, abusado samba-rock (ahhh odeio isso) com batuques caribenhos e letra bastante... Bom, não precisa nem falar. O momento bíblico, que não poderia faltar quando se fala de Roberto & Erasmo, fica por conta de “Sodoma e Gomorra”. Puta merda não? Tema bastante sugestivo, também.
Imaginem o clima durante as gravações: “Pô ali estão quase todos os Mutantes, o (guitarrista) Lanny Gordin, o Taiguara toca piano no disco e não está com o nome na ficha. Teve a Caribean Steel Band e foi muito legal gravar com tambores de lata. O estúdio ficava uma festa com esse pessoal todo.”
Essa entrevista eu achei no site Vagalume, sei lá...
No site oficial, Erasmo Carlos também fala um pouco do disco, vale a pena
Ah, curiosidade. Para quem gosta de listas: Carlos Erasmo foi votado, entre uma lista de 100, o 31º melhor álbum da música brasileira, atrás de coisas duvidosas, como Dois, do Legião Urbana, Nós vamos invadir sua praia, do Ultraje a Rigor... ixi, comprei briga?
PS - A música "Dois animais na selva suja da rua" está na muxtape do Juliano.
Carlos Erasmo – Erasmo Carlos Lançamento original: julho, 1971
1- De noite na cama 2- Masculino, feminino 3- É preciso dar um jeito, meu amigo 4- Dois animais na selva suja da rua 5- Gente aberta 6- Agora ninguém chora mais 7- Sodoma e Gomorra 8- Mundo deserto 9- Não te quero santa 10- Ciça, Cecília 11- Em busca das canções perdidas nº 2 12- 26 anos de vida normal 13- Maria Joana
o post de domingo vem em forma de devaneio, é uma espécie de comentário rápido, com um plus: um link para download... Surpreso?
Alguns artistas têm o dom de acertar a mão na mesma proporção em que erram feio. É basicamente assim que eu acredito resumir algumas carreiras. No caso, o trabalho irregular mas cheio de belas canções mid-tempo do irlandês Gilbert O'Sullivan. E é claro que se você, assim como eu, anda na casa dos 21, 22 anos, provavelmente não o conhece.
Hitmaker dos anos 70, O'Sullivan se tornou mundialmente conhecido por conta do belo hit “Alone Again”, que seus pais com certeza se lembrarão de ter ouvido muito nas rádios e nas festinhas regadas a tubaína... ou não né? Não fiz uma pesquisa de ambientação para escrever hoje, quer dizer, eu nunca fiz. O lance é que se você for com boa vontade e mergulhar em uma coletânea do sujeito, você vai encontrar algumas canções bem bregas, verdadeiros erros de arranjo, junto com algumas pérolas, criações pop perfeitas, que chegam a doer de tão bonitas. É o belo caso da canção que citei anteriormente.
Topei com “Alone Again” absolutamente sem querer, em uma coletânea em CD que encontrei em casa, dessas que não existem mais depois do MP3. Isso é tão começo dos anos 90, não é? Eu nem sabia do que se tratava, mas logo no começo a voz de O'Sullivan me fisgou: era muito parecida com a voz do dublador do seriado Doug, que ainda era genial e passava na Cultura – é, eu sei que você também assistia. Junto com isso, a harmonia da música, a maneira como ele conduz a narrativa da história e o arranjo, todos esses elementos me chamaram a atenção. Até hoje, é uma das minhas músicas favoritas, se esse tipo de lista fosse de fato possível ou justo de se fazer. No disco vinha mais uma dele, também boa demais, “Nothing Rhymed”, ainda mais doída e também composta de maneira perfeita. Não falta nada ali, é uma aula de como compor uma boa música radiofônica – assim como Bread, por exemplo. David Gates também é um baita professor.
Bom, antes de eu continuar, assista essa apresentação de O'Sullivan com o clássico “Alone Again”.
Bela canção, não é?
Hoje pela manhã, com ela na cabeça, comecei a fuçar um pouco e acabei caindo na página do cabeludo (ainda hoje), e ouvi uma música nova dele, do último disco. “Force of Habit” é mais uma música linda do cara. Me assustei até – e comecei a procurar o disco inteiro, chamado A Scruff at Heart. A minha feliz surpresa é que esse disco é aquele que ele deveria ter feito há muito: canções simples, quase que somente gravadas pela sua voz amigável e o piano. Deixo aqui o mesmo link que encontrei. O disco saiu por um selo pequeno da Irlanda, ao que me parece, ou seja, não é fácil de encontrar por aí, mas vale demais a pena. É um álbum sincero, despretensioso e belo. Uma lição a ser aprendida.
Brigas, discussões e um enorme embate de egos fizeram com que o supergrupo Crosby Stills Nash & Young se dissolvesse rapidamente. O sempre lembrado álbum Dejà Vu, de 1970 – o primeiro a abraçar o rabugento Neil Young – serviu na verdade como uma foto - vide a capa do álbum - de um momento sensacional dos quatro artistas, mas assim como a imagem das polaroids, o grupo foi passageiro. É claro que eles iriam voltar a gravar juntos, contudo, poucos acreditam que Dejà Vu não é o melhor trabalho do grupo como quarteto.
Em 1971, a turnê do disco, que deu origem ao sensacional ao vivo Four Way Street já havia sido tumultuada – e talvez isso só tenha feito com que o apetite de Stephen Stills para um trabalho solo fosse ainda maior. Não foi diferente, ainda que o álbum Manassas de 1972 seja na verdade o disco da banda de mesmo nome. Não faz diferença, e eu inclusive me atrevo a dizer que, se você quer realmente entender Stills, então é como se esse disco fosse simplesmente toda a musicalidade do guitarrista em um disco.
Lançado originalmente em um vinil duplo, as canções dos quatro lados do álbum são divididas em grupos temáticos – e eu só estou escrevendo isto por curiosidade, na hora de ouvir você pode muito bem esquecer isso: The Raven são canções mais chegadas as rock e aos ritmos latinos que Stills sempre gostou e inseriu em suas canções. The Wilderness é principalmente country e o animado bluegrass. Consider abre espaço para o folk e folk-rock e sim, nesta parte, muitas vezes existe a sensação de que a sua guitarra está de mãos dadas com a de Neil Young, o que é natural, já que foram parceiros em mais de uma banda. Quer mais uma coincidência curiosa? Ótimo. A última parte do disco é Rock & Roll is Here to Stay, com um rock mais cru e blues, gênero em que Stills sempre foi um prodígio. Muita atenção a “Treasure”, e a “Blue Man”, dedicada a Jimi Hendrix, Al “Blind Owl” Wilson e Duane Allman.
Momento trivia: Bill Wyman, baixista dos Stones, ajudou Stills a terminar “The Love Gangster”. Na verdade Wyman se empolgou tanto com o disco que teria saído dos Stones para se juntar ao Manassas. Ninguém o convidou, entretanto, a história provaria que os Stones ainda durariam algumas pequenas décadas – Wyman sairia da banda apenas em 1993! - e o grupo de Stills, ainda que com este trabalho sensacional, foi uma experiência efêmera que lançou mais um disco, sem o mesmo brilho ou inspiração.
Ficha Técnica
Stephen Stills – Manassas
lançado em 1972, pela Atlantic Records
Produtor: Stephen Stills, Chris Hillman e Dallas Taylor
O King Crimson não é só um dos maiores pilares do rock progressivo como seu primeiro disco é o marco inicial do estilo musical, mas nem só de In The Course Of The Crimson King vive a banda inglesa. Esse era o único disco que eu conhecia, até que, há poucos dias, um amigo me emprestou Red, o sétimo álbum de estúdio da banda, gravado em 1974 sob uma atmosfera de intensas brigas e com uma formação que só não é totalmente diferente da original porque mantinha o genial guitarrista Robert Fripp. Obviamente fiquei receoso, até porque sempre tive um certo preconceito com bandas progressivas muito cabeçudas, apesar de sempre gostar de uma ou outra coisa (além de Pink Floyd, que eu nem acho que seja tão progressivo assim, mas isso é tema para um outro post). Como eu tenho em alta conta quem me indicou, resolvi dar uma chance.
Deparei-me com um baita discaço, nada datado, com uma pesquisa de timbres de guitarra, bateria e baixo muito original e com muito menos punhetagem progressiva do que eu havia imaginado encontrar. As músicas são longas (são apenas cinco) e têm várias partes, seguindo a cartilha das bandas do gênero, mas não priorizam a técnica pela técnica e sim a própria música e o resultado final de tudo.
Vou tentar descrever um pouco do que ouvi. As guitarras de Fripp trazem um timbre pesado e grave, com riffs poderosos e dissonantes. Ao mesmo tempo o baixo de de John Wetton está sempre distorcido e um pouco agudo, funcionando quase que como a guitarra base da banda. A bateria de Brufford é impecável, com um pé no jazz e outro no rock – mas sem muito virtuosismo – e traz até um flerte com alguns timbres eletrônicos. Há ainda, em algumas músicas, a participação de algumas cordas de orquestra e um saxofone que, diferentemente de 90% do uso desse instrumento no rock, não soa nem um pouco brega. O disco como um todo soa bastante cru, ousado e pungente. O resultado final é quase que um pouco opressivo e intimidador e, para justificar minha editoria no ferrugem, muito pesado. O único senão, talvez, seja a faixa tocada ao vivo "Providence", que destoa um pouco do resto do disco por mais parecer uma peça de música erudita dodecafônica do que propriamente um tema de rock. Mas, depois de algumas audições, eu passei a gostar muito dela.
Quando ouvi não pude deixar de relacionar o som de Red com o que hoje é conhecido como post rock, estilo de música com pouquíssimo (ou nenhum) vocal tocado com instrumentos de rock que traz elementos de jazz, punk, e música erudita contemporânea. As bandas mais conhecidas desse estilo, como Tortoise, Mogwai e, aqui no Brasil, Hurtmold são consideradas por muitos hoje o exemplo do que há de mais moderninho no rock. Mas, sério, o King Crimson fez isso, e melhor, muitos anos antes.Outras bandas que muito provavelmente ouviram o disco são as conhecidas como neo-progressivas, como The Mars Volta e Tool, que, assim como Red, não trazem a chatice parnasiana (para fazer um paralelo com a literatura) de bandas como Yes e Gentle Giant, mas usam e abusam de tempos complexos e arranjos alternativos que fogem da simplicidade.
O disco me impressionou tanto que eu até queria saber se alguém tem um exemplo de album parecido, porque pra mim ficou a impressão de que Red é uma espécie de acontecimento único, um discreto presságio do que aconteceria muitos anos depois. Tenho quase certeza que é ignorância minha, pois acho difícil que algo tão diferente e genial tenha aparecido assim do nada, como se fosse uma geração espontânea artística.
Depois, pesquisando para fazer esse post, vi que um dos adoradores do disco foi Kurt Cobain, que chegou a dizer que Red “é o melhor disco de todos os tempos”. Vi também que a revista Q classificou o album do King Crimson como um dos 50 mais pesados da história. Eu não chego a ser tão entusiasmado como o falecido guitarrista e vocalista do Nirvana nem acho que Red é tão pesado assim, mas é bom saber que eu não estou sozinho ao realmente achar que esse disco é um pouco extraterreno.
Por fim, uma curiosidade. Red nunca chegou a ser tocado ao vivo porque o King Crimson acabou dois meses depois do lançamento do disco e só voltaria à ativa em 1982, já com outra formação. Será que foi porque eles tinham a impressão de que não fariam nada melhor? Besteiras à parte o download está abaixo e vale muitíssimo a pena.
PS: a única foto que realmente é relativa ao período de Red que encontrei é a da própria capa do disco logo abaixo. As outras só coloquei para fazer uma graça. A foto que abre o post mostra a primeira formação da banda. A foto com a cara assustada é a capa do disco In The Court Of Crimson King.
Ficha técnica
Red - King Crimson Lançamento original: novembro de 1974 Gravadora: Atlantic Records Duração: 39:55 Produção: King Crimson
Há um tempo atrás postei aqui um dos meus discos favoritos do Paul McCartney, Tug of War, de 1982. Tenho certeza de que não foi uma unanimidade, principalmente por conta de alguns – poucos – timbres do disco, que acabaram por soar datados. É verdade, mas isso não acontece com este pequeno pedaço de genialidade aqui...
Bom, o cenário é o seguinte: os Beatles acabaram há um ano atrás, e cada um resolveu ir pro seu canto. O primeiro trabalho solo do Paul havia sido lançado quase que junto com o último disco da banda, o tumultuado Let It Be. Se isto já era razão para celeuma, o conteúdo do disco só aumentava o estranhamento para com o público. O álbum McCartney, totalmente feito em casa, continha algumas boas canções (inclusive “Teddy Boy” que chegou a ser ensaiada pelos Beatles) e algumas linhas geniais como “Junk” e a mais famosa do álbum, a avassaladora “Maybe I'm Amazed”, mas em sua maioria, as faixas continham praticamente idéias, recortes e músicas instrumentais. Estranho, já que estamos falando do Paul McCartney. Então o que esperar de um álbum vindo do ano seguinte, mais experimentos e idéias desconexas? Exatamente o contrário.
Ram trouxe Paul de volta ao holofotes depois de uma espécie de auto-exílio em uma propriedade no campo, na Escócia, apenas com sua mulher e suas duas filhas na época. O trabalho acabou sendo uma espécie de terapia para um artista que passou toda a sua carreira como um integrante de um grupo. Gravado em Nova Iorque, e assinado por Paul e sua mulher Linda Eastman McCartney (por razões judiciais), Ram é no mínimo um álbum excelente: não posso discutir com aqueles que consideram este o melhor álbum da era pós-Beatles.
Muito mais bem trabalhado que seu antecessor, e mesmo assim com uma sonoridade aconchegante, com esse disco Paul conseguiu mostrar ao mundo que não, a sua capacidade de criar canções inovadoras, extremamente melódicas e às vezes complexas não havia esmaecido: observe o arranjo emocionante de “Dear Boy”, ou a progressão de “Uncle Albert/Admiral Halsey”, que na verdade é mais uma de suas suítes, ou seja, uma música composta por outras musiquetas combinadas – como “Band on the Run”. Monkberry Moon Delight é outra das faixas absolutamente geniais, em que, como poucos conseguem fazer, Paul criou uma atmosfera lunática e bem-humorada, com um vocal agressivo, que me parece um tanto inspirado em Little Richard. Antes de ir para um parágrafo abaixo, também recomendaria a brian-wilsoniana “The Back Seat of My Car” e é claro, uma das faixas-bônus mais tocadas do planeta – na época ela saiu como single - “Another Day, que possui uns três andamentos diferente, uma letra belíssima e a melodia... bom, vocês sabem como Paul McCartney é foda - porque ele consegue fazer tudo isso sem parecer cabeçudo ou pretensioso. Flui e pronto, você aceita isso e admira.
No fundo, eu não poderia indicar somente essas faixas, porque o disco inteiro é lindo, e sim, desta vez estamos falando de um puta clássico, seu velho cão safado.
ps: na época, dizem por aí que "Dear Boy", "Too Many People" e "The Back Seat of My Car" continham elementos que se referiam ao John Lennon. Pessoalmente, acho que é paranóia de gente querendo achar significado em tudo. Mais um ponto pra você: puxe o disco e me conte o que você achou.
Ficha Técnica
Paul & Linda McCartney - Ram
Lançado em 1971 (esse disco que você vai puxar é a reedição em CD, com faixas bônus)
Artistas de uma mesma geração e de um certo local sempre formam uma turminha. Tem a turminha dos Beatles, a turminha do Andy Warhol, do Bob Dylan, a turminha do punk, CBGB e o escambal, do hardcore, do emo... Enfim, artistas com a cabeça em coisas parecidas e que acabam, querendo ou não, criando uma estética similar. Eu não estou dizendo que você tem que gostar ou concordar. Você pode até achar, por exemplo, que essa molecada emo não é artista porcaria nenhuma. Talvez eu concorde, mas isso é com você. Não é nem disso que eu vou falar. (na foto 1, um momento absolutamente glam, Bowie como uma paquita venusiana, ou uma aranha de Marte)
Olha só,
Jamais poderia dizer que sou um profundo conhecedor de glam rock – já que eu não conheço praticamente nada do Roxy Music, por exemplo. Entretanto, um dos melhores discos do David Bowie se encaixa bem no perfil da coisa glam, isso se ele mesmo não foi (e é) um dos inventores do estilo. Por falar nisso, você já viu a capa de They Only Come Out at Night do Edgar Winter?
Impossível não lembrar de Hunky Dory... Pois é, e é de alguem dessa “Turminha do Edgar” que vou falar um pouquinho nesse post, e como o disco não é lá muito conhecido – o que é uma pena – provavelmente vou apresentá-lo ao leitor que tiver a paciência e o interesse.
Observação: se você acha que eu estou mal-humorado, é impressão sua.
Observação 2: é sério.
Bom, existe algo mais por trás dessa estética glam. Existe mais do que o visual, até porque, por Deus! Estamos falando de música. Sonoridade é como aquele tempero típico, que você mata ouvindo um solo de guitarra brega ou com timbre fantástico, uma bateria com reverb, teclados, o jeito de gravar a voz. Esse álbum de Rick Derringer, guitarrista que acompanhou os albinos irmãos Winter em vários momentos, é uma pequena jóia raramente lembrada, um disco que jamais estourou. Por isso mesmo, talvez você estranhe a capa de gosto duvidoso, mas não deixe esse pé atrás atrapalhar a audição do disco. São faixas com vigor e energia, sem deixar de lado o trabalho com as melodias, totalmente radiofônicas. Dá até pra dizer que, o bom-gosto que faltou na capa, sobrou no disco em si.
Dicas rápidas: “Rock'n'Roll Hoochie Koo”, “Teenage Love Affair”, “Cheap Tequila” e “Jump Jump Jump” para o agito; “Hold”, “The Airport Giveth” e “It's Raining” (óbvio!) para um dia chuvoso. Para o momento "dançando agarradinho", "Teenage Queen" Ah, “Slide Over Slinky” parece uma faixa que os Rolling Stones não gravaram.
Boas canções, bons timbres, bateria absolutamente deliciosa de se ouvir. É o melhor disco do mundo? Provavelmente não. Uns dos melhores de sua década? Sem dúvida um dos mais injustiçados. Agora só falta você dar uma chance ao Rick e sua velha Strato com headstock vermelho, seu velho cão safado.
Sempre considerada uma banda fantástica ao vivo, The Grateful Dead talvez tenha se superado dentro dos estúdios em dois ou três discos, no máximo. Depois de frustrar seus fãs duas vezes, a primeira ao estrear em gravadoras no ano de 1967 e, na seqüência, com um álbum maluco que tentava registrar o verdadeiro hino ao deus Sol, o grupo natural de San Francisco liderado por Jerry Garcia registrou seu melhor momento dentro de quatro paredes com o belíssimo Workingman’s Dead, lançado em 1970.
Nesta terceira tentativa, o Grateful Dead simplificou sua música e retornou ao estilo raiz de cada membro da banda: um blues recheado de folk e country. Depois de se mudar para uma casa comunitária na baía de San Francisco, a banda passou por momentos bastante difíceis, inclusive por uma parada nas delegacias carregada de LSD. Nesse espírito, decidiram retornar ao estúdio, local desgostoso para a maioria dos integrantes - que na época somavam seis -, para saldar dívidas, gravar músicas simples e curtir o momento. Não podia ser diferente: o esforço foi recompensado com músicas deliciosas, salpicadas pelas irônicas letras de Jerry Garcia e seu amigo poeta Robert Hunter, além de composições vocais únicas na história do Grateful Dead.
Em seu livro de memórias, o próprio Jerry Garcia revela as influências que teve para gravar o Workingman’s Dead: a construção vocal do grupo recentemente formado por Crosby, Stills e Nash, além de suas próprias experiências tocando banjo em bares de beira de estrada do interior dos Estados Unidos em meados dos anos 60. O resultado, não poderia ser melhor. Em uma mistura com blues, country e puro boogie, o disco talvez seja o meu favorito, já que contém três músicas essenciais em qualquer concerto da banda: a deliciosa “Uncle John’s Band”, a estridente “New Speedway Boogie”, e “Casey Jones”, que registra a viagem de cair na estrada e cair na vida (esta, aliás, sempre me impressiona pelo comecinho... algo do tipo: prepare-se).
Além desses três grandes clássicos, “Dire Wolf” e “Easy Wind” merecem grande atenção.
É importante lembrar que o Grateful Dead sempre foi uma banda que atraiu multidões em seus shows nos Estados Unidos, mesmo depois da época dos grandes festivais gratuitos, como o Monterey Pop Festival – no qual a turma liderada por Jerry Garcia finalmente mostrou seu verdadeiro lado ao embalar em um jam interminável. Somente para registrar, os outros cinco membros que acompanham o guitarrista barbudão são: Bob Wier (guitarra e vocal), Ron “Pigpen” Mckernan (teclados e vocal), Phil Lesh (baixo e vocal), Bill Kreutzmann (bateria e percussão), Mickey Hart (bateria e percussão).
Ficha Técnica
Workingman’s Dead – The Grateful Dead Lançamento original: junho, 1970 Gravadora: Warner Bros. Duração: 35:33
1. Uncle John’s Band 2. High Time 3. Dire Wolf 4. New Speedway Boogie 5. Cumberland Blues 6. Black Peter 7. Easy Wind 8. Casey Jones
Também coloquei aqui o video de "New Speedway Boogie", gravada ao vivo durante uma turnê do Grateful Dead pelo Canadá ao lado de outros grandes artistas, como Buddy Guy e Janis Joplin. O curioso é esta foi uma turnê itinerante, na qual os membros das bandas conviveram durante uma semana dentro de um trem. Para quem se interessar: "The Festival Express", disponível em dvd.
Era uma noite quase morta. Sabe quando tudo bate demais e o farol baixa? Nessas condições, tentando levantar o espírito dos colegas sonolentos, coloquei esse disco para tocar. Logo no primeiro acorde pulsante da guitarra infalível de Mark Farner, espanto: e aí Daniel, que isso? Agora, tenho a felicidade de compartilhar um dos melhores achados que tive recentemente. On Time, primeiro trabalho da bem sucedida banda americana Grand Funk Railroad, gravado ao vivo em apenas uma semana e lançado em meados de 1969.
Apesar do grande sucesso alcançado pela verdadeira “American Band”, este disco é um pouco renegado pelos críticos musicais. O lançamento do power trio norte-americano, que além do guitarrista Mark Farner contava também com as sólidas linhas de baixo de Mel Schacher e com as rítmicas batidas de Don Brewer, possui uma sonoridade de garagem que, para mim, define o rock ‘n’ roll do início dos anos 70. Além disso, apresenta a imaturidade sadia de uma banda que começava a cair na estrada.
No entanto, deixando de lado as letras bobas e ingênuas de algumas músicas, o disco apresenta duas grandes composições que se tornaram essenciais em todos os concertos da banda: a blues-rock “Time Machine”, com seu riff inconfundível, e o lamento amoroso de “Heartbreaker”.
Fora esses dois grandes sucessos, uma outra música particularmente me intrigou bastante. “T.N.U.C” foi bastante massacrada pela crítica especializada da época, que na verdade nunca simpatizou com o espírito livre do Grand Funk, mas é uma das minhas favoritas. A composição é despretensiosa, mas revela a qualidade dos artistas envolvidos: em certa altura, quebra em um jam empolgante, com um solo de bateria incrível do grandalhão Don Brewer. Puxa, tenho até vontade de falar sobre cada música...
Um belo disco.
Ficha Técnica
On Time – Grand Funk Railroad Lançamento original: Capitol Duração: 50:50
1. Are You Ready 2. Anybody’s Answer 3. Time Machine 4. High On A Horse 5. T.N.U.C 6. Into The Sun 7. Heartbreaker 8. Call Yourself A Man 9. Can’t Be Too Long 10. Ups And Downs
Abaixo, versão ao vivo da música "T.N.U.C", gravada na época que o Grand Funk já contava com o apoio do tecladista Craig Fost.
Finalmente um post sobre o cara que inspirou o nome do blog...
Não é a primeira vez que escrevo sobre esse disco. Já passei longos minutos, horas, e até mesmo dias pensando em como começar um texto como esse. Acontece que, no final desses pensamentos todos (porque é um disco que eu gosto demais, e precisava ser algo especial), percebi que não adianta muito você ficar divagando. Os outros precisam ouvir. Dessa maneira, o que você escreve é na verdade uma missão, com o objetivo de fazer o leitor ouvir o disco também. Vou me esforçar, pois, no momento, tenho aquele tempo de ser breve.
Esse é um dos trabalhos mais crus de Young. À produção, parece ter cabido apenas o trabalho de registrar o que ele e o Crazy Horse já vinham fazendo nos ensaios. Ao mesmo tempo, isso dá ao disco um intensidade e honestidade absurdas. É como uma carta cantada. Todas as canções são excelentes e sua guitarra está afiadíssima – basta saber que é neste disco que está a versão de estúdio de “Cortez, the Killer”, o riff matador de “Drive Back” e a trêpada “Barstool Blues”.
Em se falando de Neil Young, esse é um dos top5. Pronto.
Ficha Técnica
Zuma - Neil Young & Crazy Horse
Lançado em novembro de 1975 Gravadora – Reprise Duração – 36:31
Até entendo o sucesso da versão do Lenny Kravitz para “American Woman”. No final dos anos 90, o rock parecia destinado ao túmulo, com a propagação de falsos sons criados por computadores. Também, aquela linda modelo rebolando na frente da televisão... Mesmo assim, não consigo mais parar de ouvir o disco que contém a versão original dessa música, um raro sucesso na vida do grupo The Guess Who. Depois de gravar dois discos medianos, a banda formada por membros nascidos na parte francesa do Canadá (Winnipeg) lançou, em 1970, American Woman, que – apesar do tom de deboche dos vizinhos “bitolados” –, foi um sucesso instantâneo.
Em uma resenha publicada na Rolling Stones em 1972, Lester Banks, considerado um dos melhores críticos de rock (opinião não compartilhada por este simples mortal que vos escreve), afirmou que The Guess Who era Deus. Engraçado. Lá estava um canadense, e aqui vale lembrar que a rixa entre americanos e seus vizinhos do norte se assemelha ao que nós temos para com os argentinos, gritando como iria agarrar todas as mulheres americanas e, inacreditavelmente, conseguiu levar sua música ao topo da parada, tornando-se o primeiro daquele país a emplacar um hit nos EUA. Não só isso, com um riff poderoso, influenciado por The Who e The Doors, um baixo explodindo as caixas e um vocal implacável, The Guess Who criou um dos melhores discos da década de 70.
O nome da banda também é algo bastante curioso. Em uma tentativa de emplacar um sucesso apostando na burrice de seus compradores, o produtor da banda substituiu o nome original Chad Allan and The Reflections e colocou na estampa do single “Guess Who?”. A idéia era fazê-los passar por um supergrupo em disfarce. Não deu certo, mas o nome pegou. Rádios de Winnipeg tocavam o disco e alertavam os ouvintes para uma nova banda no mercado: The Guess Who.
Além do clássico “American Woman”, que não chega a ser a minha favorita do disco homônimo, “No Time” também alcançou o top 10 das paradas norte-americanas. A minha favorita é a dupla “No Sugar Tonight/New Mother Nature”, que no final junta as melodias da primeira e da segunda, criando uma sobreposição vocal muito interessante. Bastante influenciado pelos clássicos do blues dos anos 60, a instrumental “969 (The Oldest Man)” mostra a capacidade técnica do frontman Burt Cummings. Menção honrosa: “8:15” detona os ouvidos e claramente influenciou Lenny Kravitz em sua versão de “American Woman”.
Um belo disco. Aliás, um conselho: ouça alto.
Ficha Técnica
American Woman – The Guess Who Lançamento original: janeiro, 1970 Duração: 41:50 Gravadora: Buddha
1. American Woman 2. No Time 3. Talisman 4. No Sugar Tonight/New Mother Nature 5. 969 (The Oldest Man) 6. When Friends Fall Out 7. 8:15 8. Proper Stranger 9. Humpty’s Blues/American Woman (Epilogue) 10. Got To Find Another Way
Confira a música "No Sugar Tonight/New Mother Nature"
Existem gravações que chegam a ser fantasmagóricas...sem ser coisa da Bjork. O disco-solo de David Crosby é uma dessas coisas, segundo minha própria e inevitável opinião. Crosby foi (e ainda é) uma das vozes mais cristalinas do folk-rock. Um dos compositores mais criativos quando se trata de acordes e afinações e uma figura absurdamente carismática. Em seu If I Could Only Remember My Name de 1971, ele traz um punhado de canções que vão de um mantra-hippie (“Music is Love”, que é assinada por ele, Graham Nash e Neil Young) até uma linda, delicada e atormentada sinfonia de sua própria voz em overdub em “I'd Swear There Was Somebody Here”. Essa, a última faixa do disco, não tem esse nome ou essa atmosfera à toa: ela é dedicada a uma ex-namorada de Crosby que morreu tempo antes do lançamento do disco, em 1969. Não sei se vocês já ouviram a música, mas confesso que quando fiquei sabendo disso tive que ouvi-la novamente, e a sensação de estar ouvindo a voz do Crosby entrelaçando-se e criando uma atmosfera de saudade, talvez até um pouco de culpa e um desejo de que alguém pudesse realmente aparecer ali do lado, no canto dos olhos, foi algo quase amedrontador. Seria, se a música não fosse tão bonita – minhas favoritas ainda incluem “Traction in the Rain” e “Song with no Words”, cantada junto com Nash novamente. Ou seja, o álbum em si já é um terreno fértil para os que gostam dessa turma, já que também conta com a participação de Joni Mitchell que faz backing vocals em “Laughing” e “What are Their Names”.
Outra coisa que vale a pena lembrar (mais como fofoca do que qualquer outra coisa) é que o Crosby é uma das figuras mais doidonas de todos os tempos do rock. E com isso eu não quero dizer que ele somente usou muitas drogas. Ele fazia isso e também era capitão de um barco, de onde a inspiração de várias músicas surgiram como “Lee Shore”. Também acabou pagando caro com seus abusos, inclusive foi preso em 1982 depois de, além de bater seu carro, estar com um revólver 0.45 e cocaína. Tudo na mesma hora. Um combo. Ah, e se você quiser, pode vê-lo no filme Hook (aquele Peter Pan com o Robin Williams e um personagem muito chato chamado Rufio). Ele é um dos piratas do Capitão Dustin Hoffman Gancho.
Nesta apresentação, Crosby com Graham Nash na BBC em 1970.
Ficha Técnica
If I Only Could Remember my Name– David Crosby Lançamento Original: Fevereiro, 1971 Duração Total: 37:04 Gravadora: Atlantic
1. Music Is Love - (Crosby/Nash/Young) – 3:16 2. Cowboy Movie - (Crosby) – 8:02 3. Tamalpais High (At About 3) - (Crosby) – 3:29 4. Laughing - (Crosby) – 5:20 5. What Are Their Names - (Crosby/Garcia/Lesh/Shrieve/Young) – 4:09 6. Traction in the Rain - (Crosby) – 3:40 7. Song With No Words (Tree With No Leaves) - (Crosby) – 5:53 8. Orleans - (traditional) – 1:56 9. I'd Swear There Was Somebody Here - (Crosby) – 1:19
p.s.: o arquivo está em 7z, que nada mais é do que um tipo de compactação, como rar ou zip. você pode usar http://www.7-zip.org/ para obtê-lo. assim como o firefox e outros softwares o 7z é opensource. apóie essa idéia!
Nasci em São Bernardo do Campo, cresci em Santo André e mudei para Campinas com 15 anos. Agora moro em São Paulo e faço jornalismo. Toco bateria. Gosto de coisas antigas (vitrolas, móveis Eames e fotografia analógica). Amo minha família, minha namorada e meus amigos de todas as épocas, inclusive os perdidos.
André Spera
Sou um pouco míope e sofro de rinite alérgica pela manhã. Na minha opinião Sgt. Pepper's... é mesmo o melhor, mas isso não quer dizer que os outros não possam tentar.No momento estou em fuga do jornalismo, mas por enquanto ele ainda pega no pé. Meu maior sonho é ganhar um milhão de dólares. Mentira. Não é não. Qual o seu?
P.S.:este perfil poderá sofrer mudanças sem aviso prévio. Talvez eu troque de nome.
Sou brasileiro, mas não nasci ouvindo samba ou mpb. Eu ouvia, quando moleque, o Athom Heart Mother que meu pai tocava na vitrola. Só sinto nostalgia mesmo quando ouço um Led Zeppelin III ou um Déjà Vu. Depois conheci o samba, e o Vermute que me perdoe, mas ainda prefiro o rock.
Caso o conteúdo deste blog ofenda artistas e/ou gravadoras, nos prontificaremos a retirar o elemento de atrito - mas é claro que não estocamos a encrenca. Cuidado. Agentes do FBI podem entrar na sua casa. Compre os discos se o preço não estiver um absurdo.