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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Fel Rock Fest III

E o Ferrugem esteve mais uma vez dormindo... O último post foi há mais de uma semana, mas os motivos são interessantes! A turma que aqui escreve deixou para trás a crítica musical por um tempinho – ou seja lá o que nós fazíamos – para tocar um projeto paralelo que, esperamos, trará mais frutos do que a brincadeira de brincar de jornalista.

Abrimos mão de tudo isso para, ao lado de Fel Mendes, do Vermute Com Amendoim, e Marcelo Cobra, do E Digo Mais, ajudar uma turminha de amigos a divulgarem suas músicas em uma balada no dia 17 de outubro, no Hotel Cambridge, São Paulo.



Em sua terceira edição, o Fel Rock Fest – antes uma festa caseira, agora com um leve toque de profissionalismo – é a chance de você conhecer pessoalmente quem escreve aqui: a galera do Benjamins, com André Spera e Juliano Coelho dividindo a guitarra e o baixo, ao lado de Adriano Conter na bateria. A noite também contará com a banda Rosebud, mais um projeto de Juliano e amigos em comum. Nos intervalos, os DJ's Tchu e Cobra soltam nas pickups tudo de bom que já passou por este blog e mais um pouco.

Ficou interessado? Entra aqui porra: grupomanivela.blogspot.com

Neste endereço, você ficará sabendo de tudo que vai rolar no Fel Rock Fest III e também poderá ouvir um pouquinho do som de cada banda.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Direto do forno - The National

O vocal de Matt Berninger é melancólico e sua banda The National é um bom reflexo das influências de Nick Cave e The Smiths. Tudo isso daria muito errado se não fosse tratado com suavidade e com melodias que tocam alguma coisa lá no fundo, algo que andei comentando com o colunista e futeboleiro Juliano e que acho difícil de explicar.

A banda do meio-oeste dos Estados Unidos caminha em direção contrária àqueles que surgem meteoricamente e sempre carregadas de superlativos e classificações constrangedoras. Sua música é simples, direta e cortante. A bateria, um dos pontos mais fortes, lembra bastante ao estilo de Larry Mullen, do U2.

Tudo bem. Não é a promessa do rock dos anos 00. Aliás, qual é? Mas as canções de The National servem muito ao seu propósito. Ouça o lançamento mais recente, Boxer, de 2007.
Gosto muito de "Mistaken for Strangers" e "Slow Show".


Deixo aqui "Fake Empire", um belo manifesto contra a hipocrisia do falecido império norte-americano. É a onda Obama influenciando a música!








Boxer - The National
Download aqui no rapidshare

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Os arretados Allman Brothers


Li uma notícia interessante sobre brigas entre bandas, gravadoras e o tal do download publicada ontem no New York Times. A banda em questão, aliás, é uma das minhas favoritas.

Diz a pequena matéria que os remanescentes membros do Allman Brothers Band estão processando a gravadora UMG Recordings com base no argumento de “exploração digital”. Liderado por Gregg Allman, o grupo alega que suas músicas foram comercializadas, sem o pagamento devido dos royalties, por meio de CDs não autorizados, ring tones e iTunes. O valor da indenização seria de U$ 13 milhões. Amigo e economista de plantão do Ferrugem, Fernando Ferrari, pode transformar isso em reais por favor?

Não quero entrar no mérito da questão, mas faltou dizer que as “músicas comercializadas” indevidamente foram gravadas entre 1969 e 1980.

Em conversa com o colunista Juliano, tive a idéia de cutucar com a vara mais curta da história uma banda que admiro. Por isso, não me venham processar Allman Brothers, pois disponibilizo aqui o primeiro disco de vocês.


Lançado em 1969, The Allman Brothers Band não foi lá muito bem aceito pelo público, mas foi aclamado pela crítica. Conseguiu atrair atenção somente pelo fato de ter sido um dos pioneiros em resgatar o rock sulista dos Estados Unidos. Formado em uma cidadezinha chamada Macon, Geórgia, estado natal de Ray Charles e outros, o grupo dos irmãos Duane e Gregg Allman traziam em suas composições uma característica única: união entre poderosos riffs que representavam culturalmente a região e uma vertente moderna para criar improvisações.

No disco, dois clássicos que seriam marcas registradas em grandiosos shows realizados em Fillmore East entre os anos de 1970 e 1971. “Dreams” e “Whipping Post” tornaram-se duas das maiores músicas da banda e realmente são registros inquestionáveis da habilidade de Duane tocando slide guitar e de seu irmão Gregg, vocalista e tecladista exuberante. É importante lembrar que Duane morreu dois anos depois do lançamento desse álbum em um acidente de moto, tragédia que viria a repercutir negativamente no som da turma em trabalhos futuros.

Caso essa brincadeira de “bom gosto" ofenda você Gregg, por favor não peça U$ 13 milhões. Somos humildes estudantes de jornalismo.

Ficha Técnica


The Allman Brothers Band – The Allman Brothers Band
Lançamento original: novembro, 1969

Músicas para download

1- Don’t Want You No More (Spencer Davis / Eddie Hardin) – 2:29
2- It’s Not My Cross To Bear (Gregg Allman) – 4:48
3- Black Hearted Woman (Gregg Allman) – 5:20
4- Trouble No More (Muddy Waters) – 3:47
5- Every Hungry Woman (Gregg Allman) – 4:16
6- Dreams (Gregg Allman) – 7:19
7- Whipping Post (Gregg Allman) - 5:19

O video de “Whipping Post”, gravado em Fillmore East. A qualidade é tosca, eu sei, mas vale a pena.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Memória póstuma a Isaac Hayes

O cara tinha uma careca lisinha lisinha e uma voz grossa grossa. Morreu sabe-se lá de que, aos 65 anos, depois de acumular o apelido de músico mais “quente” do funk. Conquistou o povo negro ao fechar o Festival de Wattstax em 1972, resposta musical e política dos “irmãos” ao Woodstock e espécie de celebração dos conflitos ocorridos no subúrbio de Watts, próximo de Los Angeles, em 1965 – fato que culminou com a morte do ativista Martin Luther King.

Quase que política entra de fininho aqui no Ferrugem.


Como o papo aqui é música, meu humilde desejo é realizar uma memória póstuma a Isaac Hayes e comentar o que, para mim, é seu melhor disco: Hot Buttered Soul, de 1969. Pode gritar, espernear e chorar dizendo que a trilha sonora para o filme Shaft, de 1971 é melhor. Bom... gosto, como meu amigo Fel Mendes do Vermute gosta de dizer, é igual braço. Ou você tem ou você não tem.

Como o próprio nome diz, esse disco é amanteigado e quente. A voz sussurrada de Isaac Hayes é um atestado que romantismo precisa ser também sensual e que a soul music é mais que uma dose de três minutos de sentimentalismo. Arranjos incríveis, interpretação classuda e um som que viria influenciar uma geração inteira. Como fica claro pelo tempo de cada música, três acima dos 9 minutos, o músico e seu teclado tiveram total liberdade dentro dos estúdios da Stax, espécie de irmã pobre da Motown; ou melhor, espécie de irmã experimental.

Ficha Técnica


Hot Buttered Soul - Isaac Hayes
Lançamento original: julho, 1969

Músicas para download

1- Walk On By (Burt Bacharach / Hal David) - 12:03
2- Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic (Isaac Hayes / Alvertis Isbell) - 9:38
3- One Woman (Charles Charmer / Sandra Rhodes) - 5:10
4- By The Time I Got To Phoenix (Jimmy Webb) - 18:42

Para aqueles que espernearam, a introdução de Shaft, em Wattstax. "The baaaad motherfucker".

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Respostas

Pois bem, suas chances acabaram. O cachorro-quente com batata-palha da semana passada será guardado para o próximo desafio.



As respostas (não que sejam importantes, afinal ninguém participou):



1- So Sad (George Harrisson, The Dark Horse, de 1974)



2- Feelin' Blue (Creedence Clearwater Revival, Willy and the Poor Boys, de 1969)



3- Worry, Worry (Buddy Guy, A man and the blues, de 1968)



4- Whoa Mule (The Black Crowes, Warpaint, de 2008)



5- Love in vain (The Rolling Stones, Let It Bleed, de 1969) - A versão original é de Robert Johnson, bluseiro do Delta do Mississippi

6- Nature's Disappearing (John Mayall, USA Union, de 1970)



7- Blues Boys Tune (B.B. King, Blues on the Bayou, de 1998


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Blues para todo o sempre

Segunda-feira é o dia mais triste de todos. Aproveitando o clima, fiz uma coletânea de blues de maneira bem preguiçosa para renovar minha MUXTAPE.

Coloquei apenas os nomes das músicas na esperança de criar aqueles joguinhos Flash Pops da vida. Tem coisa boa aí como "Worry, Worry" de um dos guitarristas mais soul do blues e a melancólica "Love In Vain"!

Quem acertar todos os músicos/bandas ganha um cachorro-quente especial da República da Farofa, com direito a bata-palha da semana passada.

Sem vergonha gente: podem mandar as respostas ai mesmo no botão de comentários!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Desenterrando raridades: Bob Dylan

É sempre interessante quando gravadoras e artistas unem-se para desenterrar artefatos arqueológicos valiosos. Essa introdução sem pé nem cabeça serve apenas para dar a linha: Bob Dylan anunciou nesta terça-feira (29/07) que vai lançar o oitavo capítulo da série “Bootleg” (gravações não utilizadas e raridades de estúdio) em outubro. Tell Talle Signs reúne peças de museus que datam de seus últimos vinte anos, desde o disco cristão Oh Mercy ao fantástico Modern Times.


Leia a matéria do Estadão na íntegra.


Aproveitando o momento, deixo aqui uma coletânea de gravações informais de Bob Dylan acompanhado de sua banda favorita, The Band, com o título simplório de The Basement Tapes. As músicas, entre elas standards do country, composições do próprio Dylan e algumas surpreendentes canções escritas pelos integrantes da banda de apoio canadense, foram gravadas entre 1967 e 1975, em um estúdio no porão da casa de Dylan em Woodstock, New York. Vale a pena!

Aliás, estou devendo um disco do The Band aqui viu. Puta banda boa.


Ficha Técnica


The Basement Tapes – Bob Dylan and The Band
Lançamento original: junho, 1975


Músicas para downloadVol. 1 e Vol. 2


1. "Odds and Ends" (Dylan) (take 2, additional overdubs) – 1:46
2. "Orange Juice Blues (Blues for Breakfast)" (Manuel) (additional overdubs) – 3:37
3. "Million Dollar Bash" (Dylan) (take 2) – 2:31
4. "Yazoo Street Scandal" (Robertson) – 3:27
5. "Goin' to Acapulco" (Dylan) – 5:26
6. "Katie's Been Gone" (Manuel, Robertson) – 2:43
7. "Lo and Behold!" (Dylan) (take 2) – 2:45
8. "Bessie Smith" (Danko, Robertson) – 4:17
9. "Clothesline Saga" (Dylan) (take 1, additional overdubs) – 2:56
10. "Apple Suckling Tree" (Dylan) (take 2) – 2:48
11. "Please, Mrs. Henry" (Dylan) (take 2) – 2:31
12. "Tears of Rage" (Dylan, Manuel) (take 3) – 4:11

1. "Too Much of Nothing" (Dylan) (take 1) – 3:01
2. "Yea! Heavy and a Bottle of Bread" (Dylan) (take 2) – 2:13
3. "Ain't No More Cane" (Traditional) – 3:56
4. "Crash on the Levee (Down in the Flood)" (Dylan) (take 2) – 2:03
5. "Ruben Remus" (Manuel, Robertson) – 3:13
6. "Tiny Montgomery" (Dylan) – 2:45
7. "You Ain't Goin' Nowhere" (Dylan) (take 2, additional overdubs) – 2:42
8. "Don't Ya Tell Henry" (Dylan) – 3:12
9. "Nothing Was Delivered" (Dylan) (take 2) – 4:22
10. "Open the Door, Homer" (Dylan) (take 1) – 2:49
11. "Long Distance Operator" (Dylan) – 3:38
12. "This Wheel's on Fire" (Danko, Dylan) (additional overdubs) – 3:49


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Direto do forno: The Black Keyes

Mais um direto do forno. Tudo bem, o disco Attack and Release da dupla The Black Keyes não é tão novo assim, saiu em abril deste ano. Mesmo assim bateu uma necessidade de colocá-lo aqui no Ferrugem, pois pouco li sobre o lançamento aqui no Brasil. A proposta de Dan Auerbach, vocais e guitarra, e Patrick Carney, bateria e percussão, é simples: um som mergulhado em influências do blues sulista dos Estados Unidos, com distorções pesadas de guitarras ao estilo Led Zeppelin. Tudo isso feito pelas próprias mãos, em um estúdio improvisado na garagem da casa onde moram em Akron, Ohio.

O resultado lo-tech pode cansar um pouco e o disco em si perde sua força criativa no miolo, mas fiquei bastante impressionado pela potência do som que esses dois arrancam de seus instrumentos.




Eis o que foi dito sobre os caras (a tradução, novamente, é livre):

“A produção de Brian ‘Danger Mouse’ Burton – que já havia trabalho em faixas do último disco de Ike Turner – transformou Attack and Release em um trabalho multicolorido: uma mistura psicodélica com raízes de R&B, Brit-invasion em seu estado mais bruto e blues.” Will Hermes, Rolling Stones

“Entre as duplas mais expressivas do rock, como The Kills e The White Stripes, os caras do Black Keyes são os menos afetados pelas mudanças na indústria. Por isso, não é de se estranhar que o som cru e com riffs pesados ilustra uma vida que parece mais com uma experiência de Jimi Hendrix.” James Barry, Amazon.co.uk



Ficha Técnica


Attack and Release - The Black Keyes

Lançamento original: abril, 2008



Músicas para download:

1- All You Ever Wanted (2:55)
2- I Got Mine (3:58)
3- Strange Times (3:09)
4- Psychotic Girl (4:10)
5- Lies (3:58)
6- Remember When (Side A) (3:21)
7- Remember When (Side B) 2:10
8- Same Old Thing (3:08)
9- So He Won't Break (4:13)
10- Oceans & Streams (4:13)
11- Things Ain't Like They Used To Be (4:54)


Opinião própria: "Psychotic Girl" e "I Got Mine" já valem o disco.
Ouça no My space.



domingo, 20 de julho de 2008

O show perfeito do AC/DC

Talvez o álbum If You Want Blood You’ve Got It, gravado em 1978 em Glasgow, Escócia, seja o melhor registro ao vivo do AC/DC. A energia, o entusiasmo com cada nota e cada solo de Angus Young, a reação instintiva da platéia... Tudo tocado com uma força rara hoje em dia. Mais uma do fundo do baú: o primeiro disco ao vivo da banda australiana conhecida por seu peso e sua vibração (não gosto da expressão hard rock), e também o último registro ao vivo do vocalista Bon Scott, que morreria quase dois anos depois, logo após o lançamento do fantástico Highway to Hell, por causa de um acidente com bebidas e drogas.



Esse disco representa para mim a essência de um bom show de rock. Introdução incrível com a veloz “Riff Raff”, diversão com “The Jack” e um final digno da maior banda da época com “Let There Be Rock”.

Preciso abrir um espaço aqui para falar do guitarrista Angus Young, nascido em Glasgow, Escócia. O raio que cruza o nome AC/DC representa o que esse cara faz em cima do palco: os riffs poderosos, os solos pontiagudos e a movimentação louca pra lá e pra cá fazem dele o guitarrista mais elétrico que eu já vi. A formação musical adquirida dos grandes nomes do blues norte-americano, como Muddy Waters, deixam Angus à vontade para movimentar-se entre solos lentos e doloridos, enquanto que seu pulsante desejo de balançar a cabeça ao ritmo pesado e metálico produzido pelos companheiros de banda também o deixam à vontade para marretar sua personalizada Gibson SG sem piedade.



Ouçam.


Ficha técnica





















If You Want Blood You've Got It
- AC/DC
Lançamento original: outubro, 1978
Gravadora: Albert

Músicas para download - Vol. 1 e Vol. 2

1 - Riff Raff (5:10)
2 - Hell Ain't A Bad Place To Be (4:02)
3 - Bad Boy Boogie
4 - The Jack (5:43)
5 - Problem Child (4:32)
6 - Whole Lotta Rosie (3:50)
7 - Rock 'N' Roll Damnation (3:30)
8 - High Voltage (6:00)
9 - Let There Be More Rock (8:15)
10 - Rocker (3:00)


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Direto do forno: Fleet Foxes

Vou tentar lançar uma nova onda aqui no renovado Ferrugem. A idéia é toda sexta-feira colocar algum álbum quentinho do forno e cheirando a sucesso para download. Não tenho a mínima pretensão de postar a melhor coisa do mundo ao estilo Lúcio Ribeiro de ser (arrghh!!).

Abro a cartola com uma banda de Seattle chamada Fleet Foxes. Não, eles não tentam carregar o legado do Pearl Jam. Pelo My Space a turma define seu estilo como um folk carregado no barroco de Bach. Tudo bem, parece chato, mas não é!

As comparações e os adjetivos foram tirados de uma ótima resenha publicada hoje no New York Times A tradução é livre:

- Fleet Foxes combina o velho e melódico country-rock de Crosby Stills Nash & Young com o estilo despojado de My Mourning Jacket e Band of Horses.

- A banda de Seattle toca algo que Graham Parsons (ex-The Byrds) chamou de música cósmica americana.

- As harmonias vocais do grupo soam como uma mistura de Brian Wilson e Wayne Coney, do Flaming Lips. (Desculpa, mas essa eu não concordo!)

Opinião própria: os caras construíram um som suave e gostoso de se ouvir ao pôr-do-sol com uma garrafa de tereré a tira-colo. As músicas “Sun Giant” e “Mikonos” são atmosféricas (!?).

O disco Fleet Foxes (primeiro da banda) pode ser encontrado neste bizarro blog: http://baransworld.blogspot.com/2008/06/fleet-foxes-fleet-foxes.html




Um yakisoba da Paulista para quem descobrir qual é a língua desse blog.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Viajar para

Não me lembro quem exatamente perguntou por que o Ferrugem não coloca música brasileira para baixar. Olha, não que isso tenha sido uma decisão dos colunistas. Apenas foi assim. Para quebrar esse monopólio, pensei em colocar aqui um dos discos mais viajados de nosso incrível repertório nacional. Caí nas graças quando ouvi Carlos Erasmo, do ex-tremendão Erasmo Carlos.

Falar que esse álbum é produto somente da suave e fantasmagórica (obrigado André!) voz de Erasmo Carlos e de seus arranjos poéticos é pouco.


O cara contou com uma “tremenda” ajuda de vários colegas: os mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho tocam como músico de apoio, o doido Lanny Gordin (que já havia tocado com Gal Costa) e o maestro tropicalista Rogério Duprat também participam. A lista não acabou. A faixa de abertura, a melosa “De noite na cama” é do Caetano, o gingado de Jorge Ben aparece na psicodélica “Ninguém Chora Mais”, e a dupla Marcos Valle e Taiguara rouba a cena com a despretensiosa “26 anos de vida normal” e com “Dois animais na selva suja”.

Mas e aí, como o cara que era símbolo da “revolução ingênua”, queridinho das queridinhas da Jovem Guarda deixou isso tudo de lado? Em parte por que Erasmo Carlos havia acabado de trocar de gravadora e passou a ter mais liberdade para trabalhar seu lado mais introspectivo. Conseguiu assim unir estilos musicais nordestinos em suas canções e adotar as inovações do rock dos anos 70. Assim, acaba-se com o ie-ie-ie chato de outras épocas e passa a compor músicas profundas e sofisticadas.

A parceria com o rei Roberto Carlos também tomou rumo mais maduro. Rendeu até a mais celebrada música do disco: a ode “Maria Joana”, abusado samba-rock (ahhh odeio isso) com batuques caribenhos e letra bastante... Bom, não precisa nem falar. O momento bíblico, que não poderia faltar quando se fala de Roberto & Erasmo, fica por conta de “Sodoma e Gomorra”. Puta merda não? Tema bastante sugestivo, também.




Imaginem o clima durante as gravações: “Pô ali estão quase todos os Mutantes, o (guitarrista) Lanny Gordin, o Taiguara toca piano no disco e não está com o nome na ficha. Teve a Caribean Steel Band e foi muito legal gravar com tambores de lata. O estúdio ficava uma festa com esse pessoal todo.”


Essa entrevista eu achei no site Vagalume, sei lá...

No site oficial, Erasmo Carlos também fala um pouco do disco, vale a pena


Ah, curiosidade. Para quem gosta de listas: Carlos Erasmo foi votado, entre uma lista de 100, o 31º melhor álbum da música brasileira, atrás de coisas duvidosas, como Dois, do Legião Urbana, Nós vamos invadir sua praia, do Ultraje a Rigor... ixi, comprei briga?

PS - A música "Dois animais na selva suja da rua" está na muxtape do Juliano.



Carlos Erasmo – Erasmo Carlos
Lançamento original: julho, 1971



Músicas para download

1- De noite na cama
2- Masculino, feminino
3- É preciso dar um jeito, meu amigo
4- Dois animais na selva suja da rua
5- Gente aberta
6- Agora ninguém chora mais
7- Sodoma e Gomorra
8- Mundo deserto
9- Não te quero santa
10- Ciça, Cecília
11- Em busca das canções perdidas nº 2
12- 26 anos de vida normal
13- Maria Joana

domingo, 29 de junho de 2008

Motomix 2008

Já falei aqui como festivais de música parecem instalar um clima diferente na cidade. São Paulo, 28 de junho: Motomix, gratuito, Parque do Ibirapuera. Por motivos de força maior, consegui chegar ao local onde estava montado o belo e grande palco somente no final do show do The Go! Team e do Metric inteirinho. Que surpresa! Duas bandas diferentes, mas que conseguiram empolgar muito.



O sexteto inglês The Go! Team possui uma formação estranha.
Nos vocais a elétrica e maluca Ninja, dois bateristas, uma japinha maravilhosa na guitarra, um baixista e outro guitarrista. O som também é uma mistura inusitada de cantos de torcida com uma batida funk, guitarras distorcidas e um baixo pulsante. Não sei como comparar com alguém, ainda acho difícil classificar. Talvez um indie rock com forte influências do hip hop de Afrika Bambaataa? Sei lá. Quanto ao show, a palavra é impecável. O público presente gritou, chorou e esperneou por mais... A vocalista Ninja agradeceu de forma carinhosa aos fãs após encerrar o set com “Doing it right” e “Keys to the city”, duas das minhas favoritas.

O apresentador do festival Edgar (isso, aquele que era da MTV e depois foi fazer algo muito tosco no Multishow) até brincou: “Essa mulher é mais brasileira do que todos aqui presentes”. Em seguida, emendou: “Agora a banda mais dançante do indie rock!”. E então, a noite ficou mais linda.

A loirinha Emily Haines, deliciosa em seu conjunto de coro roxo colante, entrou no palco, se posicionou à frente de seu sintetizador e soltou uma voz graciosa e poderosa ao mesmo tempo. Canta muito! E essa banda canadense, presente desde 1998 com suas influências do post rock de 80, é realmente muito dançante. Variando entre baladas harmoniosas, ataques de riffs pesados e melodias doces que dão vontade de assobiar o dia inteiro, o Metric (leia-se Emily) conquistou meu coração.


No final, a loirinha desceu do palco, ficou frente a frente com a platéia e encerrou sua maravilhosa participação no Motomix. “Vocês deveriam sentir-se orgulhosos de poder morar em São Paulo”, falou Emily ao se despedir... É e eu fiquei orgulhoso de ter visto VOCÊ! Achei as músicas “Dead Disco” e “Monster Hospital” simplesmente perfeitas.

Vale a pena repetir. Moramos em uma cidade invejada por artistas de fora e que precisa de eventos gratuitos como este para que a movimentação cultural por aqui cresça ainda mais! O Motomix de ontem mostrou que é possível, que há retorno financeiro para as marcas envolvidas, e o público curte com mais liberdade um festival feito assim. Lanço aqui uma campanha para o FIM DO INGRESSO A R$ 300 e toda essa porcaria de superfaturar em shows medíocres.

Se você teve uma impressão diferente do Motomix mande o texto para o e-mail ferrugemnuncadorme@gmail.com

Puxa, vou radicalizar. Se quiser mandar uma resenha de show sinta-se à vontade. Afinal, não podemos estar em todos os lugares sempre!

Para quem se interessou, deixo aqui os links para download:



Live it Out
Metric
Lançamento original: setembro, 2005
Last Gang Records
Download: http://rapidshare.com/files/34473253/Metric_-_Live_It_Out.zip










Proof Of Youth
The Go! Team
Lançamento original: setembro, 2007
Memphis Industries
Download: http://lix.in/bfa76fed








Coloco também dois clipes. O primeiro é "Doing it right", The Go! Team. O segundo é "Dead Disco", Metric.



segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mestres do Groove

Eu já imaginava que a minha visita ao Borboun Street, famosa casa de shows em São Paulo, seria de graça. É a vida de um protótipo de jornalista do interior na capital brasileira da cultura: o que é de graça a gente traça. Mas é impossível reclamar depois de acompanhar uma das melhores apresentações ao vivo que já presenciei, o monstruoso jazz-funk do Godfathers of Groove, na terça-feira passada, dia 27 de junho, me deixou extasiado.


São três dos melhores instrumentistas desse estilo único que une o melhor de James Brown com a belíssima capacidade de improvisar dos mestres do jazz: Rueben Wilson, inabalável com seu Hammond B3 (pela primeira vez vi que um baixo não faz falta ao funk), Grant Green Jr., dono de um vozeirão impecável e mestre no solo oitavado, e o baterista Bernard "Pretty" Purdie, inventivo, simpático e que exalava groove.

Esses caras aí tocaram com alegria, sorriram com o público e demonstraram que virtuosismo é pura magia quando utilizado a favor da música. Ao lado de uísque e canapés chiquíssimos, o melhor do cardápio: uma mistura de soul, funk e jazz contagiante. Tocaram de tudo, desde a clássica trilha sonora de James Bond a "What's Going On", de Marvin Gaye. Esta música, aliás, pegou a galera de surpresa no Bourbon. Foi o último set do show e as cocotas já demonstravam cansaço, irritação ou simplesmente má educação. Mas foi logo Grant Green abrir a boca e soltar as primeiras palavras... "Mother, Mother"...

Delírio.

A minha adoração já havia se tornado completa quando, um pouquinho antes, os três negões emendaram uma versão funk da música "Sookie Sookie" com uma batida completamente nova para mim, a chamada "Purdie Shuffle". Puta merda! Conhecia uma versão feita pelo Steppenwolf em 1968 e desconhecia seus autores (Don Covay e Steve Cropper). Essa batida, aliás, é de autoria do baterista gordinho Bernard Purdie, que subverteu o tradicional shuffle (ouça "Poorboy Shuffle", do Creedence Clearwater Revival, ali em baixo) e o deixou cheio de veneno, com um groove inexplicável.



Confira o currículo das feras neste endereço: http://www.jwpjazz.com/masters.html

Outra opção: veja o vídeo promo de quando a banda era chamada Masters of Groove e contava ainda com o baixista Jerry Gemmott na formação


segunda-feira, 26 de maio de 2008

O country-rock do The Byrds

Mais uma do fundo do baú...

Depois de estourar de tanto sucesso após o lançamento do disco The Notorius Byrd Brothers, acompanhar a saída melancólica do bigodudo David Crosby e do baterista de confiança Michael Clarke, The Byrds era uma banda cansada. Como procurar novo ânimo? Talvez uma nova “pegada”? Ou quem sabe uma nova força criativa para levantar a moral? A resposta de Roger McGuinn, cérebro por trás do conjunto formado em 1965, foi apostar na conversa mole ao mais estilo mineiro possível de Chris Hillman e Gram Parsons.

A proposta de mudar de rumo feita por McGuinn mudou a perspectiva de Hillman e Parsons. Os dois ex-membros da banda country The Flying Burritos Brothers embarcaram na onda e decidiram reviver suas raízes de bluegrass adquirida pelos descampados do centro-norte dos Estados Unidos. Aí a fórmula estava pronta. Música para caipira, COM o tanto de rock que os Byrds antigos sempre foram mestres: fortes refrões com linhas dedilhadas misturado ao British Invasion versão mais lírica. O resultado é o disco Sweetheart of The Rodeo, considerado um dos pioneiros no estilo country-rock.





Coisas boas sobre o álbum: ele tem a melhor versão de “You Ain’t Going Nowhere”, do Bob Dylan, (talvez, melhor mesmo até que a original); ele te faz esquecer as breguices country das quais você tem medo de escutar; ele te mostra que banjo, bandolim, cravo e outros instrumentos podem SIM fazer parte de uma banda de rock; ele revela canções tradicionais da cultura desbravadora do oeste norte-americano e para quem gosta de filmes de faroeste isso é divertido... E aí, quer mais?

PS: desculpem-me a ausência de quase duas semanas. Ócios do ofício, sim ofício.

Ficha Técnica


Sweetheart of The Rodeo - The Byrds
Lançamento original: julho, de 1968
Gravadora: Columbia
Duração: 32:26


Músicas para download


1. "You Ain't Going Nowhere" (Bob Dylan) – 2:38
2. "I Am a Pilgrim" (trad. arr. Roger McGuinn & Chris Hillman) – 3:42
3. "The Christian Life" (Charles Louvin, Ira Louvin) – 2:33
4. "You Don't Miss Your Water" (William Bell) – 3:51
5. "You're Still on My Mind" (Luke McDaniel) – 2:26
6. "Pretty Boy Floyd" (Woody Guthrie) – 2:37
7. "Hickory Wind" (Gram Parsons, Bob Buchanan) – 3:34
8. "One Hundred Years from Now" (Parsons) – 2:43
10. "Blue Canadian Rockies" (Cindy Walker) – 2:05
11. "Life in Prison" (Merle Haggard, J. Sanders) – 2:47
12. "Nothing Was Delivered" (Bob Dylan) – 3:34


Confira "I Am a Pilgrim"

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A nova aparição dos Corvos


Depois de sete anos, os irmãos Chris e Rich Robinson deixaram de lado as birras e voltaram aos estúdios para gravar o mais novo disco do Black Crowes, um misto de Lynyrd Skynyrd com Led Zeppelin. É bastante gente foda como referência, mas o importante é destacar que Warpaint, lançado mundialmente no dia 3 de maio, é autoral: a voz rasgada de Chris e os riffs com peso de uísque de Rich recheiam músicas bastante originais que percorrem temas variados: lamentos amorosos, noites de loucura e, como sempre, a clássica ressaca do dia depois.

Neste álbum, os reformulados Crowes contam com a ótima participação do guitarrista Luther Dickinson, que acrescentou muito à banda com seus slides, e também com a presença surpreendente do tecladista Adam MacDougall, elogiado por todos os antigos membros após as sessões de gravação.

A história dessa banda sempre foi tempestuosa. Talvez por isso se explique a lacuna de sete anos sem divulgar nada novo. Porém, o legado que os irmãos Chris e Rich conseguiram construir entre os tempos de fertilidade e latência é fantástico: em 1990, surpreenderam o mundo com o poderoso Shake Your Moneymaker, um disco repleto de músicas cruas, mas bem trabalhadas. Logo em seguida, cravaram de vez o nome The Black Crowes como um dos melhores grupos de rock sulista (meio estilo Confederado caipira, barba grossa e chapéu) dos Estados Unidos com The Southern Harmony and Musical Companion.

Mesmo que Warpaint beba profundamente nos poços que levaram os Crowes a banda de status, o disco soa antigo e moderno ao mesmo tempo. A poderosa “Goodbye Daughters Of Revolutions” abre o caminho, sempre trilhado no blues, de um dos mais esperados lançamentos de 2008. A melancólica “Oh Josephine” relembra a dor de “She Talks to Angels” e “Whoa Mule”, gravada ao ar livre em uma pequena cidadezinha ao norte de Nova York, encerra o tranco e mostra que, embora essa banda tenha sempre sido massacrada pelas constantes bebedeiras, brigas e desavenças com gravadoras, os irmãos Robinson conseguem se renovar. Mesmo que isso demore quase uma década.
Dá uma ouvida nessa:





Tem uma resenha muito boa escrita por Alan Light, da Rolling Stones norte-americana, que vale a pena ler. Eu queria só saber por que no Brasil não se falou dessa estrondosa reaparição dos Corvos?

Ah, já ia esquecendo. Outra coisa bastante legal de conferir é o site oficial dos caras. Lá, eles deixaram disponível todos os vídeos de shows (recentes e antigos) para download. Também tem a possibilidade de baixar dois discos de graça. Como existe um limite, fica a sugestão: os dois primeiros.



Ficha Técnica



Warpaint – The Black Crowes
Lançamento original: março, 2008
Gravadora: Silver Arrow (selo da própria banda)

Músicas para download

1. Goodbye Daughters Of The Revolution
2. Walk Believer Walk
3. Oh Josephine
4. Evergreen
5. Wee Who See The Deep
6. Locust Street
7. Movin’ On Down The Line
8. Wounded Bird
9. God’s Got It
10. There’s Gold In Them Hills
11. Whoa Mule

O vídeo que lançou a banda como um foguete. Meio brega, mas a música é de outro mundo!


quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Traffic depois do LSD

O primeiro trabalho do Traffic, lançado em 1967 com o nome sugestivo de Mr. Fantasy, foi aclamado pela crítica, mas é daqueles discos complicados de ouvir: instrumentos distintos, como flauta, saxofone, tambores, organizados de maneira desordenada. Algo como uma música avant-garde com um misto de psicodelia. É, eu também estranhei! Para quem curtir o estilo, sugiro uma fantástica e esquecida banda: Presidents of The United States of America (não, não é aquela da bela musiquinha “Peaches”).


Bom, logo em seguida, a banda criada por Steve Winwood em parceria com outros doidões deixou de lado as canções orientadas pelo consumo inquieto de LSD e partiram para uma leitura mais pop. O resultado é uma mistura agradável pra porra de blues, rock psicodélico e um moderno jazz. O segundo disco carrega o nome do grupo e, para mim, representa exatamente a sonoridade pretendida por seus membros: uma relaxante viagem. Outros poderão dizer que John Barleycorn Must Die é o melhor trabalho desses caras de Birmingham (Reino Unido). Discordo, sem falsa modéstia.


Apesar de Steve Winwood ser considerado o mentor por trás da sonoridade moderna do Traffic, nesse segundo disco é Dave Mason quem rouba a cena. O baixista, que já havia tocado com Jimi Hendrix e com os Rolling Stones, compôs a maioria do primeiro lado do álbum. Outro que marca presença de forma magistral é Chris Wood, com sua flauta suave. Já ouvi dizer que ele foi comparado com Ian Anderson, do Jethro Tull. Pô! Sacanagem. Aquele toca seu instrumento com uma orientação clássica, já o maluco barbudo do Tull estraçalha sua flauta como se fosse uma guitarra elétrica.


Vários clássicos nesse trabalho do Traffic: “You Can All Join In” abre o disco e convida os ouvintes para uma deliciosa prática. “Feellin’ Allright” virou lenda entre vários músicos ingleses e foi imortalizada com a voz rouca e potente de Joe Cocker. “Means to an End” – minha favorita – fecha o ciclo com potência: é a mais animada e revela a poderosa batucada do insano Jim Capaldi.

Um belo disco!


Ficha Técnica



Traffic – Traffic
Lançamento original: outubro, 1968
Duração: 40:24
Produzido: Jimmy Miller

Músicas para download

1. You Can All Join In (Mason) – 3:34
2. Pearly Queen (Capaldi/Winwood) – 4:20
3. Don’t Be Sad (Mason) – 3:24
4. Who Knows What Tomorrow May Bring (Capaldi/Winwood/Wood) – 3:11
5. Feellin’ Alright (Mason) – 4:16
6. Vagabond Virgin (Capaldi/Mason) – 5:21
7. Forty Thousand Headmen (Capaldi/Winwood) – 3:15
8. Cryin’ to Be Heard (Mason) – 5:14
9. No Time To Live (Capaldi/Winwood) – 5:10
10. Means To An End (Capaldi/Winwood) – 2:39


Dá uma olhada na música Forty Thousand Headmen, gravada ao vivo em um show de 1972.

Steve Winwood retoma velha fórmula

Presença constante no movimento R&B inglês no começo dos anos 60, figura marcante na desilusão hippie no começo de 70 e compositor apaixonado por ritmos de descendência africana, Steve Winwood voltou a cravar seu nome na história da música com o lançamento do seu novo e aguardado disco solo no finalzinho de abril. No entanto, Nine Lives - que conta com a guitarra onipresente de Eric Clapton na faixa “Dirty City” – não é uma obra sólida. Há momentos de pura magia, como a música de abertura, a rouca e empoeirada “I’m Not Drowning”.

Por outro lado, o gosto do ex-vocalista do Traffic por batuques de origem africana irritam um pouco. Sabe quando parece que todas as faixas possuem a mesma sessão rítmica, sem criatividade? Sem falar no exagerado saxofone de “Fly”, a segunda do novo trabalho de Winwood: som de motel é pouco para definir a cafonice. Na contramão, um exemplo no qual a percussão e o saxofone foram utilizados com inteligência é “Hungry Man”, que traz traços do disco mais funkiado do cara: The Low Spark of High Heeled Boys.

Achei as canções um pouco longas demais. Sabe quando o cara tenta criar aquela atmosfera de jam, com bastante variações e solos perfeitamente encaixados na melodia, mas não consegue? A maioria das faixas tem duração de sete minutos e muitas chegam a cansar pela falta de inspiração. Pode ser que eu tenha encucado com alguma coisa e não sei bem dizer o que é, embora o resultado final tenha agradado. Embora eu seja bastante fã do Steve Winwood que fez maravilhas ao lado de Jim Capaldi, Chris Wood e Dave Mason à frente do Traffic, esse trabalho não me entusiasmou tanto. Vale a pena conferir.



Um trecho de uma resenha publicada na Rolling Stones norte-americana no dia do lançamento (29/04/08)

“A voz de Steve Winwood está mais grave, talvez uma suave herança do blues britânico, consistente e bem otimista em todo o álbum Nine Lives. No trabalho inteiro, existe um revival do groove despretensioso e reflexivo do Traffic” – David Fricke

Ficha Técnica

Nine Lives – Steve Winwood
Lançamento original: abril, 2008
Duração: 57:17

Músicas para download

1. I’m Not Drowning
2. Fly
3. Raging Sea
4. Dirty City
5. We’re All Looking
6. Hungry Man
7. Secrets
8. As Times We Do Forget
9. Other Shore

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Os cinco melhores discos de funk

Meio sem querer, virou mania do Ferrugem mostrar os clássicos e sugerir discípulos de sons consagrados. Esse Barry Adamson aí não teria feito nada disso se não fosse pelos grandes pioneiros do funk, soul e R&B. Por isso, acho legal colocar o que para mim são os cinco melhores exemplos desses estilos todos misturados. Prometo evitar comentários muitos longos!

Maggot Brain – Funkadelic

A maioria pula a primeira música desse disco. Acho a coisa mais ingrata com o melhor trabalho de George Clinton, o gênio pirado do funk, lançado em 1971. O clima é completamente quebrado se você começar direto na pulsante “Can You Get To That” – uma belíssima faixa criada para exaltar o amor: “When you base your life on credit and your loving days are done / Cheques you sign with love and kisses later come back signed 'Insufficient Funds’”. Esse álbum é perfeito, do começo ao fim, por isso não pulem nada!





Tudo bem, o cara era um canalha e espancava a mulher. Mas, em 1969 Ike Turner produziu o que seria a definição mais bela do que realmente é o estilo soul: revelação sincera de seus sentimentos, com uma levada blues e uma batida rítmica carregada na condução. O resultado? O melhor disco para entender a alma dos negros. Estranhamente, esse é o único trabalho de Ike Turner com esse conjunto. No resto da carreira, acompanhou Tina Turner em suas turnês “picantes”.



Banda irmã de George Clinton, Parliament começou mais cedo e recrutou a maioria dos caras que também lançariam discos com o nome de Funkadelic. Esse trabalho de 1970 abriu as portas para a galera do PFunk e tem tudo que viria a distinguir o grupo de outros concorrentes: letras hilárias, misturas de gêneros dissonantes (confira “Little Old Country Boy”, um country com batida funk), e uma agressividade latente por parte dos músicos. “Put Love In Your Life” e “Moonshine Heather” são canções para o resto da vida. Vale a pena!



O André com certeza vai discordar dessa minha escolha, já que para ele There’s a Riot Going On é superior a tudo, mesmo sem ter ouvido outros discos do Sly. Esse cara é foda. Ao lado de George Clinton, é a cabeça por trás do nascimento do funk. Ele toca absolutamente tudo, compõe de maneira magistral e possui uma consciência política rara: foge do óbvio, e ataca a obediência cega do povo. Musicalmente, esse lançamento de 1969 é dançante, desafiador e profundo. Grandes sucessos como “Every Day People” e “I Want To Take You Higher” marcaram a época.


Podem me chamar de, sei lá, louco por cultura americana. Aqui abro homenagem para Tim Maia, o maior músico de funk e soul do Brasil. Essa coletânea anda meio rara por aí, embora a música seja de primeira qualidade. O disco faz um apanhado das principais canções gravadas pelo Sindico nos Estados Unidos entre o período de 1971 e 1976 (seu melhor período?). Não é que eu sou louco por tudo que vem de lá, mas a qualidade das gravações é ótima e o repertório fantástico. É bom sair do óbvio às vezes e deixar o Racional descansar um pouco!

Para degustar: a primeira é "Don't Call Me Nigger, Whittey", do Sly e a segunda é "I Don't Know What To Do With Myself", do Tim.


A pose de Barry Adamson


Recebi uma dica fantástica do Juliano para procurar um tal de Barry Adamson, ex-baixista do Nick Cave. Eu já estava propenso a fazer um post sobre funk, soul e R&B e fiquei com mais vontade ainda. O cara tem pose, um vozeirão ótimo e um conjunto de apoio que esbanja classe. Com essa descoberta, fiquei pensando que esses três estilos, sempre misturados e que dificilmente caminham sozinho, trilharam um longo caminho até chegar ao que esse negão aí fez.

Por isso, nesse breve post introdutório, queria só sugerir uma novidade: o segundo disco solo de Barry Adamson, Back To The Cat, lançado neste ano. Ainda não tive oportunidade de enferrujar por completo, mas sinceramente já o considero muito bom!

No site oficial do cara dá para ouvir todas as músicas. A que me fez cair da cadeira foi a batida dançante de “Spend a Little Time” e o riff perfeito de “Shadow Of Death Hotel”.

O endereço para download é esse aqui:
http://rapidshare.com/files/112709977/barry_adamson_back_to_the_cat_2008_ferrugemnuncadorme.blogspot.com_.rar.zip.html

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Uma empolgante orgia cultural

Acabado, estirado no sofá, os olhos lacrimejando de sono, consegui achar uma palavra para definir o que foi a “minha” Virada Cultural. Empolgante! Tudo bem, vi pouco, vi os shows mais batidos do programa e, mesmo assim, achei um evento fantástico. O centro de São Paulo impressionou: a iluminação criada especialmente para as 24 horas de orgia cultural era perfeita, a organização deu baile nessa edição e não teve confusão de maiores conseqüências, nenhum corre-corre. Vale a pena dar uma olhada na galeria de fotos do UOL.

Podem até me chamar de cafona, brega ou saudosista, mas achei incrível ver tanta gente mobilizada para curtir um som, assistir a uma peça ou simplesmente tomar todas e aproveitar a festa. Um festival gratuito como esse transcende o papel de ser apenas mais um deleite para o ouvinte. Ele passa a representar um movimento coletivo que reúne gente de todos os tipos para vivenciar uma experiência artística sem precedentes. Por falar em todos os tipos, quanto estilo bizarro existe nesse mundo! Achei engraçadíssimas algumas figuras na Virada.

Chega de viagem de bar e vamos aos pontos altos.


- Sábado consegui me levantar da cama à meia-noite para correr ao centro e pegar um lugarzinho no show dos Mutantes , um dos mais disputados desta edição. O que eu ouvi de reclamações do nosso colunista André sobre o som do palco São João não é brincadeira... Somente Sérgio Dias e Dinho Leme da formação original estão na banda, mas mesmo assim eu tinha que ouvi-los ao vivo pelo menos uma vez na vida. Bom aproveitar essa oportunidade, pelo menos era de graça.

Sérgio Dias, considerado por ele mesmo o maior guitarrista da Via Láctea, estava em forma: cantou bastante, tocou bem e até colocou no repertório “Uma pessoa só”, do disco O A e o Z. Bom, vieram as reclamações do som. Nessa, o André ganhou. Realmente, estava um desastre. Quem ficou perto do palco não chiou, mas quem ficou mais afastado ouvia a bateria, a voz nasal de Sérgio Dias e um ou outro grito da Bia Mendes, nova vocalista da turma.


Eles tocaram a nova música, “Mutantes Depois”, que não empolgou muito não. Gostei do discurso de abertura do Sérgio Dias, mais uma piração naquela história de que todos somos “uma pessoa só”.

“Estaremos agora entregando a todos vocês a nossa música, a primeira de muitas que estamos compondo. Chama-se Mutantes Depois. Ela é sobre vocês, o nosso público, os reais mutantes de cuja energia somos feitos como uma pessoa só”. Achei legal isso.


- Os sons de domingo começaram mais cedo. Depois de uma pausa rápida para recuperar a cabeça, uma correria para pegar o show de Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiros e Márcia. Eles recriaram o famoso show O Importante É Que Nossa Emoção Sobreviva, que eu desconhecia. Achei fantástico. O pessoal não estava muito entrosado, mas o som era perfeito no Teatro Municipal. Tudo bem, isso aí é assunto que o Vermute pode aprofundar.


Depois, uma rápida passagem no palco da Canja Rock-Blues. Gostei da iniciativa do pessoal lá. Uma verdadeira sessão jam, sem ensaios e sem frescuras: não me lembro de quem estava no palco, mas tocaram a meio-que-já-batida “Hoochie Coochie Man” e um boogie de um gaitista paulistano que eu não sei o nome.

Para encerrar a orgia, Jorge Ben no palco da São João. Achei o show incrivelmente empolgante. É claro que algumas coisas foram irritantes: o público se esgoelava nas músicas mais conhecidas, como “Taj Mahal”, “W/Brasil” e “Mais que nada”. Quando ele emendou três músicas da Tábua de Esmeraldas, um povo mais quieto e menos feliz. “O Namorado da Viúva”, “Menina da Pele Preta” e “O Homem da Gravata Florida” foram os pontos altos.



Nesse show o som estava fantástico. O Jorge Ben, infelizmente, só tem uma levada agora. A Virada Cultural é o melhor evento cultural da cidade de São Paulo e deveria ser realizada em duas edições anuais. Achei incrível.