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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Viajar para

Não me lembro quem exatamente perguntou por que o Ferrugem não coloca música brasileira para baixar. Olha, não que isso tenha sido uma decisão dos colunistas. Apenas foi assim. Para quebrar esse monopólio, pensei em colocar aqui um dos discos mais viajados de nosso incrível repertório nacional. Caí nas graças quando ouvi Carlos Erasmo, do ex-tremendão Erasmo Carlos.

Falar que esse álbum é produto somente da suave e fantasmagórica (obrigado André!) voz de Erasmo Carlos e de seus arranjos poéticos é pouco.


O cara contou com uma “tremenda” ajuda de vários colegas: os mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho tocam como músico de apoio, o doido Lanny Gordin (que já havia tocado com Gal Costa) e o maestro tropicalista Rogério Duprat também participam. A lista não acabou. A faixa de abertura, a melosa “De noite na cama” é do Caetano, o gingado de Jorge Ben aparece na psicodélica “Ninguém Chora Mais”, e a dupla Marcos Valle e Taiguara rouba a cena com a despretensiosa “26 anos de vida normal” e com “Dois animais na selva suja”.

Mas e aí, como o cara que era símbolo da “revolução ingênua”, queridinho das queridinhas da Jovem Guarda deixou isso tudo de lado? Em parte por que Erasmo Carlos havia acabado de trocar de gravadora e passou a ter mais liberdade para trabalhar seu lado mais introspectivo. Conseguiu assim unir estilos musicais nordestinos em suas canções e adotar as inovações do rock dos anos 70. Assim, acaba-se com o ie-ie-ie chato de outras épocas e passa a compor músicas profundas e sofisticadas.

A parceria com o rei Roberto Carlos também tomou rumo mais maduro. Rendeu até a mais celebrada música do disco: a ode “Maria Joana”, abusado samba-rock (ahhh odeio isso) com batuques caribenhos e letra bastante... Bom, não precisa nem falar. O momento bíblico, que não poderia faltar quando se fala de Roberto & Erasmo, fica por conta de “Sodoma e Gomorra”. Puta merda não? Tema bastante sugestivo, também.




Imaginem o clima durante as gravações: “Pô ali estão quase todos os Mutantes, o (guitarrista) Lanny Gordin, o Taiguara toca piano no disco e não está com o nome na ficha. Teve a Caribean Steel Band e foi muito legal gravar com tambores de lata. O estúdio ficava uma festa com esse pessoal todo.”


Essa entrevista eu achei no site Vagalume, sei lá...

No site oficial, Erasmo Carlos também fala um pouco do disco, vale a pena


Ah, curiosidade. Para quem gosta de listas: Carlos Erasmo foi votado, entre uma lista de 100, o 31º melhor álbum da música brasileira, atrás de coisas duvidosas, como Dois, do Legião Urbana, Nós vamos invadir sua praia, do Ultraje a Rigor... ixi, comprei briga?

PS - A música "Dois animais na selva suja da rua" está na muxtape do Juliano.



Carlos Erasmo – Erasmo Carlos
Lançamento original: julho, 1971



Músicas para download

1- De noite na cama
2- Masculino, feminino
3- É preciso dar um jeito, meu amigo
4- Dois animais na selva suja da rua
5- Gente aberta
6- Agora ninguém chora mais
7- Sodoma e Gomorra
8- Mundo deserto
9- Não te quero santa
10- Ciça, Cecília
11- Em busca das canções perdidas nº 2
12- 26 anos de vida normal
13- Maria Joana

15 comentários:

Guilherme disse...

Puta disco, bela escolha. "Agora ninguém chora mais" é um hino. Fiquei saudoso de uma outra canção antiga do Erasmo que é um clássico... "Coqueiro Verde".

Anônimo disse...

Gostei da letra de "Não te quero santa". É isso ae, como que é a frase "de mina fresca eu tô a pampa"?

Juliano Coelho disse...

o meu muxtape já mostra o quanto gosto desse disco. Vale a pena ressaltar a qualidade da gravação e da produção levando em consideração o tempo e o espaço (Brasil, no começo dos anos 70).

daniel marques disse...

Realmente, a qualidade é muito boa! Também, com tanta gente foda... Acho que o cuidado com os arranjos, com a sonoridade de cada instrumento. A primeira música é muito boa por isso, dá para ouvir a batida da pedra do berimbau!

Anônimo disse...

O erasmo carlos velho não parece com o trajano, da ESPN Brasil???

Anônimo disse...

parece sim.
mas eu gostaria de comentar que este é um dos mais belos discos.

Juliano Coelho disse...

Mas, Daniel, eu também colocaria "Carlos, Erasmo" na frente do "Nós Vamos Invadir Sua Praia", mas o disco do Ultraje está longe de ser "duvidoso"... Porra, puta disco!

Anônimo disse...

Ultraja a rigor foi o primeiro show que eu vi na vida!!!

Guilherme disse...

O primeiro show que vi na vida foi Ira!, na "turnê" do disco Clandestino.

andré spera disse...

com certeza não foi exatamente o primeiro show que eu vi - o primeiro não dá pra lembrar, mas uns dos primeiros que fui QUERENDO ir foi um pato fu, na extinta FICAR (feira da indústria e comércio de assis e região). era na época do genial disco ruído rosa. foi muito bom.

Juliano Coelho disse...

o primeiro show que eu fui foi um da rita lee, fui com minha família. eu devia ter uns 8,9 anos.

daniel marques disse...

o primeiro show que "realmente" fui foi paul simon e bob dylan...Tinha 12 anos, não sabia muito quem eram esses caras.

Lembro que tinha achado o do paul simon melhor!

Guilherme disse...

Aliás, isso dá pano pra manga pra post...

Sergio disse...

Gozado o fato de ter vindo aos comentários justamente pra defender o Ultraje, lembrando do 1º show que vi deles, e encontrar o tema "1º show da minha vida" já bombando entre a freqüência.

Comigo aconteceu assim. Vi pela 1ª vez a apresentação de "Inútil" numa tarde de domingo, pela TV no Chacrinha, olha só. Aquela música mexeu fundo comigo, pela época, tudo a ver com o momento político, etc, etc... Enfim, corri pro 1º show dos caras no Circo Voador aqui no Rio. E fui sozinho, nem quis saber de arrumar companhia, só queria ver a apresentação dos Inútil, dos Eu me amo e todo o excelente repertório do 1º álbum dos caras - que, se não me falha, não é o "Nós vamos invadir"... Minha memória é traíra.

Já o Legião, sem sacanagem, nunca entendi a comoção social aborrecente que essa banda provocou. Talvez e certamente pq não era eu mais adolescente na época. E quando comparam Renato Russo com Cazuza (comparação recorrente e se pensarmos bem, nada óbvia) saio até de perto pra não sair na porrada defendendo o 2º.

Mas o Tremendão é a questão, né? Cago pra listas. Realmente o primeirão do Ultrage me marcou mais até do que o Wave do Tom. Por isso acho uma perda de tempo isso de lista de "melhores", há tantas questões pessoais envolvidas nisso que eleição de "O mais importante", soa muito medíocre pro meu gosto.

daniel marques disse...

A graça sobre listas é exatamente essa!
Gostei dos comentários Sergio!